A operação
de aeronaves em condições de precipitação
durante o inverno com temperaturas abaixo de zero, pode ocasionar
sérios problemas aos tripulantes, à manutenção,
aos controladores de tráfego e aos operadores dos aeroportos.
A maioria das dificuldades operacionais encontradas no inverno
ocorre no solo. A falta de precauções adequadas
e em particular antes da decolagem, pode resultar em incidentes
ou até acidentes.
Um
caso ocorrido no inverno de 81 com um 737 durante a decolagem
em Washington fez 78 vitimas. O avião decolou e estolou
durante uma nevasca intensa com o ENGINE ANTI-ICE desligado e
com gelo e neve sobre as superfícies dos comandos, embora
tivessem sido degelados com Glycol antes da partida dos motores.
Devido ao táxi prolongado por ocasião da nevasca,
as superfícies do avião estavam novamente contaminadas
ao iniciar a decolagem.

Contribuiu
também para o acidente a decisão do Comandante em
não interromper a decolagem, quando no início da
corrida o 1° oficial o alertou para as indicações
anormais dos instrumentos dos motores, que provavelmente estavam
com formação de gelo.
A - LIMPEZA EXTERNA DO AVIÃO
Todos
os dados relativos aa desempenho e a controlabilidade de um avião
são baseados numa aeronave aerodinâmicamente limpa;
não há certificação ou tabelas corretivas
para aeronaves contaminadas por gelo, neve ou geada.
Quanto
mais avançada for a aerodinâmica de um avião,
mais critico se torna o mesmo aos riscos de uma contaminação
durante o inverno.
A
limpeza externa do avião no solo é uma tarefa especifica
da manutenção, de acorda com métodos e procedimentos
definidos. É entretanto responsabilidade da tripulação
verificar se essa operação foi devidamente efetuada
antes da partida da aeronave.
As
áreas mais críticas e que devem merecer a maior
atenção são as seguintes:
Asas
e cauda - contaminação por neve, geada e gelo
Motores - contaminação por gelo
Sistema PITOT e tomadas estáticas - contaminação
por gelo
O
fluido normalmente utilizado no degelo de aviões no solo
é uma solução de Glycol, cuja concentração
e técnica de aplicação é determinada
pelas condições reinantes, especialmente a temperatura.
Para degelar pequenas áreas, eventualmente são utilizados
jatos de ar quente.
Os
fabricantes do Glycol não garantem a duração
do efeito anti - gelo da solução, ou seja, o de
impedir nova aderência de gelo ou neve, se após o
degelo persistirem as condições meteorológicas.
O efeito preventivo do Glycol depende de muitos fatores, tais
como a concentração da solução, tipo
de pulverizador utilizado, temperatura, ponto de orvalho, espessura
da película residual do Glycol, capacidade de aderência
da área tratada, tipo de precipitação, direção
e velocidade do vento, etc...
Em
face do exposto, as tripulações devem ter em mente
que, mesmo após um degelo completo da aeronave antes da
partida, poderá ocorrer nova contaminação
até a hora da decolagem se o taxi for demorado e continuar
a precipitação de neve ou chuva congelante. Foi
o que aconteceu ao 737 acima citado.
É
determinação das autoridades americanas, também
aplicáveis aos operadores estrangeiros nos EE.UU.
1°
- É proibido decolar com neve, gelo ou geada aderindo às
asas ou superfícies de comando de uma aeronave (ver NOTA
sobre geada).
2°
- A tripulação deve examinar as superfícies
das asas antes da decolagem, se houver precipitação
de neve ou de chuva congelante, e tenham decorrido mais de 20
minutos desde o degelo da aeronave, ou desde a última confirmação
de que as superfícies do avião estavam completamente
limpas.
Convém lembrar que os 20 minutos são apenas uma
referência, pois em determinadas condições
atmosféricas, o gelo pode formar-se em menos tempo, mesmo
que a aeronave tenha sido tratada com Glycol.
É da responsabilidade do comandante a avaliação
final do estado do avião antes de iniciar a decolagem,
se continuarem as condições de neve ou chuva congelante.
Não se deve acreditar na teoria de que a neve acumulada
durante o táxi possa se desprender das asas por ocasião
da corrida da decolagem, pois a neve poderá estar congelada
e aderindo firmemente às superfícies do avião.
NOTA:
A geada (FROST ) forma-se no solo, sobre os aviões, telhados,
etc... quando devido ao efeito da radiação noturna,
a temperatura atingir 0 C ou menos.
A
geada acumulada sobre as superfícies de um avião,
embora de aparência inofensiva, tem que ser removida antes
do vôo, pois ela representa uma superfície de aspereza
considerável, que aumenta a resistência ao avanço
e a velocidade de estól.
Quando endurecida, a geada transforma-se em gelo opaco (RIME ICE),
semelhante ao que se forma nas superfícies externas dos
congeladores domésticos, de extrema aderência e aspereza.
Esse tipo de gelo opaco foi uma das causas contribuintes de um
acidente ocorrido com um DC- 8, durante a decolagem em ANCHORAGE.
Uma extensa película de geada em cima das asas pode reduzir
em até 50% a sustentação e aumentar em 30%
velocidade de estol que poderá ser critico numa decolagem,
pois a velocidade de estól poderá ser igual ou até
maior que a V2.
É
entretanto permitida uma película de geada de até
1/8 polegada exclusivamente debaixo das asas, quando causada pelo
combustível com tempera inferior a 0°c no interior
dos tanques. Para detalhes, verificar os manuais.
B
- CHEQUE PRÉ-VÔO
É
extremamente importante um cheque pré - vôo externo
detalhado, tarefa nem sempre agradável em condições
de tempo adversas. Devem ser inspecionados:
Fuselagem,
asas e cauda.
A
remoção da neve ou do gelo da fuselagem deve ser
efetuada antes do aquecimento prolongado do interior do avião,
a fim de evitar que a neve escorrida se congele na parte inferior
da fuselagem.
Pilotos e tomadas estáticas
-
Devem estar completamente limpos, sem nenhum acúmulo de
gelo nas áreas adjacentes, o qual poderá causar
indicações errôneas nos instrumentos de pressão
devido á deformação do fluxo do ar em torno
das tomadas estáticas. Já se registraram diversos
incidentes em võo por esse motivo.
-
Todas as entradas e saídas de ar, suspiros, "fuel
tank vents", "out flow valves", etc...
-
Amortecedores, atuadores, interruptores, portas do trem, etc...
-
As entradas de ar dos motores devem estar internamente livres
de gelo ou neve.Quando praticável, girar o FAN manualmente
para certificar-se de não estar congelado.
-
Havendo areia espalhada pelo pátio, verificar se está
isenta de pedras congeladas, que possam oferecer riscos de ingestão
pelos motores ou de petardos após a partida dos motores.
-
Verificar se o avião está devidamente calçado,
quando estacionado numa área congelada. Para CROSS - BLEED
STARTS, são recomendados calços especiais para gelo
ou sacos de areia.
-
Verificar se os pneus não estão congelados ao solo.
O gelo deve ser eliminado com ar quente ou Glycol, a fim de se
evitar danos aos pneus ao se iniciar o táxi ou o reboque
do avião.
C
- PARTIDA DOS MOTORES
A
partida dos motores será convencional. Nos motor GE, um
congelamento do FAN será notado pela inoperância
do N1. Se um STARTER VALVE deixar de abrir, a manutenção
deverá aplicar ar quente nessa válvula, que poderá
estar congelada. Se o motor não pegar, deverá ser
aplicado ar quente no FCU e na ignição.
Em
tempo muito frio, a pressão do óleo dos motores
poderá inicialmente exceder os limites usuais, normalizando
após o aquecimento.
Se
o motor estiver com um COLD SOAK prolongado, fumaça branca
escessa poderá aparecer durante a partida, causada por
combustível vaporizado e não queimado, que deverá
desaparecer rapidamente.
Cheque
dos comandos após a partida
É
importante efetuar um cheque meticuloso de todos os comandos,
estabilizador e compensadores. Verificar também o funcionamento
dos flaps; se ocorrer um trancamento ou assimetria, retornar o
FLAP LEVER para a posição correspondente ao trancamento
e chamar a manutenção. Recolher os flaps após
o cheque.
D
- TÁXI
-
Ao iniciar o táxi, a roda do nariz deve ser comandada várias
vezes em ambas as direções, para circular o óleo
hidráulico aquecido e minimizar os retardos do comando
direcional.
-
Se as condições foram favoráveis ã
formação de gelo, ligar o ENGINE ANTI- ICE. Durante
operações no solo prolongadas em condições
de formação de gelo, acelerar os motores para 60%
N1 durante 30 segundos, a intervalos de 1 hora (GE), ou 80% N1
cada 10 minutos, no caso dos motores PW.
-
Exercer toda a cautela possível ao taxiar sobre áreas
cobertas com gelo. Velocidade excessiva, a rajada de um outro
avião, ou vento cruzado forte, poderão causar uma
derrapagem.
Há
alguns anos um 747 sofreu um acidente em ANCHORAGE com grandes
danos estruturais, quando o piloto perdeu o controle direcional
ao taxiar com vento cruzado superior a 20 nós, numa pista
de táxi congelada, com ação de freada.
-
Manter os FLAPS/SLATS/L.E.FLAPS recolhidos ao taxiar por superfícies
cobertas de SLUSH ou poças d'água.
Terminar
o CHECK LIST somente após o arriamento dos FLAPS, observando
atentamente os indicadores para detectar uma eventual assimetria
ou trancamento durante a operação dos mesmos.
-
Durante o táxi deve-se manter uma separação
maior que a normal em relação a outras aeronaves,
para não expor o avião à contaminação
de neve, gelo ou SLUSH soprados, que podem inclusive causar avarias.
A rajada de um outro avião pode também causar uma
derrapagem.
-
A não ser quando absolutamente necessário, não
se deve utilizar os reversíveis durante o táxi,
pois poderiam causar um acúmulo de neve ou SLUSH nas superfícies
da aeronave ou reingestão pelos motores. É necessária
uma inspeção, especialmente nos L.E.FLAPS, se os
reversíveis tiverem sido utilizados.
SLATS.
Cuidado
com os bancos de neve ao longo das pistas de táxi, oriundos
da raspagem da neve logo após uma nevasca intensa. Uma
batida com a nacele de um motor num banco de neve aparentemente
solta mas que pode estar congelada, pode resultar em danos sérios
ao motor.
DECOLAGEM EM PISTAS CONTAMINADAS
Nunca
decolar com potência reduzida.
É desaconselhável a decolagem em pistas congeladas,mesmo
com vento calmo, que não tenham sido previamente tratadas
com areia ( SANDED ) .
Iniciar
a decolagem no eixo da pista e com o avião alinhado.
Avançar as manetes vagarosamente,mantendo a simetria no
ajuste de potência, a fim de evitar tendências direcionais.
Não exagerar nos comandos da roda do nariz, devido aos
riscos de derrapagem.
Pode-se melhorar o contrôle direcional entre 60 e 100 nos,
utilizando os elerões.
Uma interrupção da decolagem próxima à
Vl com o avião Pesado é uma manobra extremamente
crítica.
Com vento de travéz, há riscos de perda de controle
direcional ou de AQUAPLANING, dependendo do estado da pista. Se
o avião começar a derrapar lateralmente, reduzir
os motores para IDLE REVERSE até readquirir o contrôle
direcional.
A
BOEING recomenda utilizar a Vl mínima para decolar em pistas
contaminadas, aplicando todas as correções e limitações
de acordo com o manual.
Havendo
incerteza quanto a algum item que possa afetar a cegorança
de uma decolagem numa pista em condições adversas,
deve-se retardar a operação até esclarecer
á duvida.

EFEITOS
DA NEVE E DA LAM A DE NEVE DURANTE A DECOLAGEM
Neve
seca e solta (DRY POWDERED SNOW)
Até o presente, não existem dados precisos para
se avaliar o efeito da neve seca sobre a performance de uma aeronave.
Há muitos anos as empresas aéreas vem decolando
sem maiores problemas com neve seca e solta de até l0 cm
de espessura (4 pol.). Para eventuais limitações
devem ser consultados os manuais.
Lama
de neve (SLUSH)
O
limite máximo para se decolar com SLUSH, neve molhada ou
agua, é de 1/2 polegada (13 mm). Verificar o manual para
as limitações aplicáveis.
Durante
a decolagem com SLUSH, forma-se uma onda de compressão
em frente aos pneus, que cresce em função da velocidade
do avião e que poderá dificultar a aceleração
nas velocidades mais altas.
Decolando-se
com SLUSH de espessura além dos limites,poderá tornar-se
difícil ou até impossível a aceleração
da V1 até a VR, com possibilidades de danos estruturais
nos flaps.
Após a decolagem, se praticável, recomenda-se ligar
o WING ANTI-ICE após o recolhimento dos flaps, para derreter
o gelo eventualmente acumulado no bordo de ataque das asas.
Alguns
operadores também recomendam reciclar o trem de pouso assim
que o avião estiver devidamente estabilizado na subida
inicial, a fim de evitar o congelamento das portas, articulações,
etc...
Se suspeitar, durante a decolagem ou durante uma Departure Holding,
de uma formação de gelo acentuada na empenagem,
recomenda-se acelerar o avião em baixa altura até
a TAT ultrapassar 0 C, a fim de derreter o gelo , antes de prosseguir
na subida.
Passáros.
Outro
problema eventualmente presente am alguns aeroportos abrecanos
e canadenses durante o inverno e após o por do sol, são
os pássaros não migratórios que costumam
pousar nas pistas e nas látarais, atraídos pelo
calor dos jatos e pelo sal utilizado na remoção
da neve ou pelos resíduos da vegetação do
degelo.
DESCIDAS
Durante
as descidas observar as normas previstas nos manuais.
Se necessário, deve-se desligar o AUTO-THROTTLE, a fim
de se ajustar manualmente as RPM mínimas recomendadas para
garantir a eficiência do sistema de proteção
contra gelo. Não se deve efetuar esperas com os flaps estendidos,
se houver formação de gelo.
Uma pista com SLUSH ou poças congeladas e vento cruzado
são uma péssima combinação. Observar
as limitações.
Se
o sistema de degelo das asas estiver inoperante e não houver
muito gelo acumulado no bordo de ataque, convém aumentar
em 10 nós a VREF; não deixar o avião flutuar
para "matar" o excesso de velocidade durante o pouso.
A
neve soprada (blowing or drifting)
Cria uma falsa impressão da trajetória do avião
em relação ao solo. O piloto pode ter a ilusão
de não existir nenhuma deriva; quando de fato existe uma
deriva acentuada.
Nessas condições convém utilizar como referência
os marcadores ou luzes do eixo da pista, se visíveis.
Arremeta se não conseguir alinhar o avião com o
eixo da pista.
Diversos
pilotos já reportaram problemas de desorientação
espacial por efeito das STROBE LIGHTS de aproximação,
durante pousos noturnos com precipitação de neve.
Para
pousar em pistas contaminadas, utilizar as técnicas conhecidas
para pistas escorregadias, que resumidamente são as seguintes:
Não deixar o avião flutuar; baixar a roda do nariz
imediatamente enquanto estiver atuando os SPEED BRAKES e armando
os reversíveis;
não usar reversíveis assimétricos; em pistas
curtas ou escorregadias, utilizar o AUTO BRAKE em máximo;
se não dispuser de AUTO BRAKES, utilizar ao máximo
os freios manuais.
Não
desligar o ANTI SKID para melhorar a eficiência dos freios.
Não se deve utilizar os reversíveis em baixa velocidade
com neve seca na pista, pois a mesma será soprada à
frente do avião e irá restringir a visibilidade
dos pilotos. Outrossim, essa neve poderá aderir ao avião
e congelar nas superfícies ou cavidades críticas.
O
efeito somado dos reversíveis e do vento de través
em pistas escorregadias pode eventualmente resultar em problemas
de controle direcional.
Se isto vier a ocorrer, deve-se imediatamente reduzir todos os
reversíveis para IDLE REVERSE, soltar os freios e fazer
o avião retornar ao eixo da pista, utilizando o leme de
direção, roda do nariz e freio diferencial; não
se deve utilizar reversíveis diferenciais. Re-adquirido
o controle sobre o avião, utilizar os freios e os reversíveis
de acordo com a necessidade.
Não
abandonar a pista enquanto não reduzir a velocidade para
um valor prudente.
APÓS
O POUSO
Após
pousar em SLUSH ou água com temperatura próxima
a zero, os flaps devem ser recolhidos apenas parcialmente; o recolhimento
total somente deverá ser efetuado após uma inspeção
pela manutenção.
Usar
o ENGINE ANTI-ICE de acordo com as necessidades.
ESTACIONAMENTO
Evitar de estacionar o avião durante ou imediatamente após
a execução de uma curva fechada. Se praticável,
deixar o avião percorrer uma pequena distância com
a roda do nariz centrada afïm de deixar livre os amortecedores.
Soltar
os freios após os calços para prevenir o congelamento
dos mesmos.
Para paradas prolongadas em condições adversas,
a manutenção deverá adotar as medidas apropriadas
às circunstâncias tais como:
instalar PLUGS nos motores, drenar os reservatórios de
água, manter as portas fechadas, colocar capas protetoras
nos PITOTS, etc.
Durante mais de 40 anos de operação com jatos comerciais
de todos os tipos, milhares de pousos e de decolagens tem sido
realizados em condições de inverno extremamente
rigorosas, com um índice de segurança impressionante.
Esse índice de segurança não foi fruto do
acaso mas sim, do resultado de terem sido observados e seguidos
os procedimentos recomendados, tanto pela manutenção
como pelas tripulações técnicas das aeronaves.
Fontes
consultadas:
Douglas Aircraft - Winter Operation
SAS - Winter Wings - Winter Aeroplane FAA AC 91-13
BOEING AIRLINER
Cmte. HEINZ PLATO
Pesquisado
por Cmte. Bassani