A história da Varig precisa ser contada para que as companhias entendam que não são eternas e que decisões equivocadas cobram um preço caro de todos, principalmente dos trabalhadores.
Ao longo desse ano, entrevistando não só figuras do setor aeronáutico, mas também pilotos,
comissários, mecânicos e até pessoal de terra, que vende passagens e sorri gentilmente para os clientes quando, por dentro, sofre angústias que a maioria de nós sequer imagina. Encontrei uma comissária recém-demitida, cuja mãe está com câncer, em estado terminal. Como consolar uma pessoa que vive um drama destes?
Cultura organizacional, embora pareça algo intangível, é um fenômeno bem palpável. Veja um
exemplo: em uma reunião com aeronautas no Rio ouvi uma comissária da Varig dizer que preferia
trabalhar como doméstica do que pedir emprego à em uma outra grande empresa. Ela não sabia que estava falando com um professor de cultura organizacional e que a declaração dela me despertara enorme interesse. Fiz outras perguntas e ela me surpreendeu ao dizer que não trabalharia nessa empresa porque tinha colegas que haviam passado pela experiência e que não a repetiriam jamais. Isso mostra a força da cultura de uma organização.
Conheci estudantes que trabalhavam na TAM e na GOL e todos eles, sem exceção, detestavam as empresas, que consideravam sanguessugas. Já o que vejo na Varig é algo surpreendente: mesmo sem receber há meses, mesmo sendo iludidos por ex-diretores da empresa que mereceriam estar na cadeia há muito tempo, mesmo sendo ignorados por uma justiça trabalhista inepta e tendenciosa e por governos corruptos, mesmo sendo manipulados por grupos maquiavélicos que só ambicionam o poder, o pessoal da Varig ama a empresa e lamenta o seu fim.
Tudo o que tenho visto sobre a Varig aponta para uma dramática contradição e um inexplicável paradoxo. Vou me explicar. Segundo um autor norte-americano, chamado Gareth Morgan, que analisou profundamente os perfis das organizações, entre muitos tipos organizacionais há um especificamente que ele chama de "Sistema Político". Estudo muito os modelos organizacionais e já encontrei várias empresas com este perfil (CEF, Banco do Brasil, Petrobras), mas nenhuma como a Varig. A Varig pode ser considerada o tipo perfeito de "sistema político organizacional". O que vem a ser este tipo? Organizações como "sistemas políticos" funcionam como uma espécie de "congresso nacional empresarial", ou seja, são organizações que reúnem diversos grupos políticos (partidos) que se articulam, disputam poder, ora se aliam, ora se atacam e que convivem com um objetivo maior que é o de levar a empresa adiante somente enquanto seus interesses estão sendo atendidos.
Morgan assinala, no entanto, que quando a disputa se intensifica, quando os grupos políticos que estão no poder atuam de modo predatório, o futuro da organização pode ser inapelavelmente comprometido. Bem, Morgan nunca viu a Varig e escreveu este texto há 20 anos, mas o que ele viu certamente explica o que está acontecendo hoje à empresa.
A cultura organizacional da Varig, que se traduz em um "sistema político", levou a empresa à destruição de modo inapelável. Os grupos de poder que se sucederam no comando da empresa agiram mais em benefício próprio do que em benefício do todo e comprometeram o futuro da companhia. Mas qual é o paradoxo desta avaliação? O paradoxo é o amor que as pessoas da base da pirâmide da Varig dedicam à empresa. Qual de nós ama o Congresso Nacional? Com exceção dos políticos que fazem suas fortunas como "representantes do povo", podemos dizer que a maioria da população desconfia da instituição "Congresso Nacional". No entanto, apesar de toda a política que levou a Varig à destruição, a base da pirâmide da empresa ama a companhia e lamenta seu desaparecimento. Este sim é um fenômeno digno de se investigar.
A Varig acabou? Bem, talvez seja cedo para dizer. A verdade é que estamos vendo nascer outro paradoxo.
A empresa que vai herdar o nome Varig talvez tenha pouco a ver com a Varig que todos nós conhecemos agora. Mas se a empresa remanescente, que se chama Linhas Aéreas Nordeste, conseguir a façanha de superar os desafios enormes que tem pela frente e se impor como companhia aérea, esta sim terá mais chances de herdar o DNA da Varig e se transformar em sua sucessora. O tempo dirá o que vai suceder, mas há uma grande chance da Varig competir contra a Varig em um cenário futuro, o que é mais um dos paradoxos que cerca esta companhia tão misteriosa.
O estudo de Morgan é relevante porque sua análise sobre empresas como "sistemas políticos" poderia ser aplicada integralmente à Varig, sem a necessidade de alterar uma única vírgula. E olha que ele escreveu isso há mais de 20 anos. Sistemas políticos, como a Varig, geram todo tipo de grupos, alguns bem-intencionados e outros profundamente mal-intencionados. Penso que o pior "produto" gerado por esse "sistema político" que se tornou a Varig é justamente este grupo que agora trabalha pela destruição da empresa a qualquer preço, um grupo que já tive oportunidade de denunciar em artigos no Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Observatório de Imprensa e até no site oaviao.com.
Tenho acompanhado diversas reuniões de aeronautas, tanto no Rio quanto em São Paulo, e o que mais me impressiona é a virulência deste grupo e a incapacidade de muitos aeronautas de compreenderem o quanto esta gente é nociva. O que falta para que as pessoas compreendam o que se esconde por trás deles? Isto é um grande mistério.
No entanto, acho importante dizer a você que minhas pesquisas estão revelando coisas interessantes acerca dessa gente. É visível que, com algumas exceções, esse grupo tem poucos cérebros pensantes porque ele fundamenta suas ações em ataques e ofensas. Este é um método essencialmente nazista, que costuma cativar apenas pessoas com cultura limitada, cheias de ódio e preconceito. Outra coisa alarmante acerca deste grupo é o fato inequívoco de que seus integrantes mudam de posição e opinião como quem muda de camisa, sem que isso soe estranho a ninguém. Há vários documentos que comprovam que o grupo é uma empresa, que foi criada para tomar o controle da Varig. Prova irrefutável disso é que há pouco tempo esse grupo fez um lance no leilão pela compra da Varig. Ou seja: a ambição deste grupo era a de ser empresário, dono de empresa, patrão. Como podem eles, então, dizer que representam os trabalhadores?
E como podem as pessoas acreditar nisso?
Pergunto a vários aeronautas o que eles sabem sobre esse grupo e as respostas são tão caóticas quanto a própria situação da empresa. Alguns dizem que eles são uma associação de pilotos, outros dizem que são dirigentes sindicais e outros, ainda, dizem que a turma desse grupo é um bando de oportunistas liderados por algumas consultorias espertalhonas. Estes últimos não sabem o quanto têm razão. Eu mesmo tentei, há alguns meses, agendar uma entrevista com as lideranças deste grupo. Depois de vários telefonemas, perguntas, questionamentos e desconfianças, a resposta que recebi era a de que tudo o que tinham a dizer estava no site da APVAR.
Que estranho comportamento esse. Por que se esconder?
Analisando a história deste grupo, seu percurso, seus movimentos e suas ações, encontramos apenas um profundo rastro de destruição. Quer um exemplo? A Associação dos Pilotos da Varig, que já foi a maior associação de pilotos da América Latina, referência em muitos sentidos, e que reunia mais de 1.500 profissionais associados, está hoje em farrapos, com menos de 10% desse total de sócios. Comandada de modo autoritário por um grupo que manchou irremediavelmente sua história, a APVAR precisa desesperadamente que alguns pilotos de bem, íntegros, articulem a retomada do comando dessa associação que deveria estar desempenhando um papel mais digno na crise da Varig e não apenas tramando a destruição da empresa. Entre os aeronautas, os pilotos sempre foram um time de importância fundamental, com um papel de liderança nas lutas dos profissionais do setor, que conquistaram muita coisa no passado. Mas onde estão os pilotos de bem hoje, que não enxergam que a história da APVAR está sendo pisoteada de forma quase irrecuperável? Onde estão?
Mas esta não é a questão principal acerca deste grupo. Tenho dito aos sindicatos que estão às voltas com esta gente que os trabalhadores que apóiam esse grupo não devem saber que a proposta de divisão da Varig em duas, deixando a parte "velha" com as dívidas e os trabalhadores, e a "nova" com os aviões e os direitos, foi sim articulada por este grupo quando ele tentou a compra da Varig com um dinheiro que não tinha e que esperava receber emprestado do BNDES. Quantos sabem disso?
Mas a verdade é ainda mais asquerosa! A proposta original desse grupo, era que a "velha" Varig não ficaria sequer com os créditos a receber do ICMS cobrado indevidamente da empresa (algo ao redor de dois bilhões de reais), nem mesmo os crédito que a empresa tem a receber em função do congelamento de tarifas praticado por diversos governos (algo ao redor de cinco bilhões de reais). Pela proposta do grupo, estes créditos, que hoje certamente vão servir para quitar as dívidas trabalhistas da "velha" Varig, iriam para a empresa que eles "comprariam" com o dinheiro do BNDES; ou seja, comprariam a empresa usando o dinheiro dos trouxas contribuintes, que somos todos nós, e ainda ganhariam cerca de sete bilhões de reais como créditos certos, já consignados pela Justiça. Que grande golpe, não?
Era o golpe da vida deles. Mas e para os trabalhadores? O que eles dariam aos aeronautas? Leia a proposta deles e verá: embora hoje eles vociferem contra as debêntures, eles propunham pagar os trabalhadores com debêntures sobre lucros futuros, não em 10 anos, mas em 20 anos, ou seja, usando os créditos trabalhistas como parte de sua oferta pela empresa. É absurdo que as pessoas não vejam isto! Como é que essa gente, hoje, critica o plano de recuperação da empresa se eles propuseram algo muito pior para os aeronautas? Veja: eles só fazem isso porque as pessoas têm memória curta, não lêem documento algum, apenas confiam no que os outros dizem ou em bobagens que circulam pela internet ou por celulares todos os dias.
Apesar de todas estas articulações, de todas estas patifarias, de toda esta sede de poder, o tal grupo se apresenta aos aeronautas como "representante dos trabalhadores". Me perguntei muito se este discurso mentiroso conseguia enganar alguém e, infelizmente, vejo que alguns incautos e tolos caem nesse conto, chegando a dar procurações a essa gente sem perceber que chegará a hora em que os advogados do grupo vão apresentar uma fatura que, garanto, será bem salgada. Há aeronautas iludidos, achando que os conflitos entre o grupo e sindicatos são uma questão "pessoal e política". Terrível engano este! Porque enquanto as pessoas pensam assim, este grupo, que é movido por interesses comerciais, financeiros e particulares, continua atuando com o claro objetivo de destruir o pouco que resta da Varig para abrir caminho aos advogados e suas ações mirabolantes. Isso sem falar na famosa dor de "marido traído" porque, a esta altura, eles devem estar dizendo que se não puderam ter a Varig, ninguém mais a terá. Algo para esclarecer em um divã, por certo.
Tenho me dedicado, ainda, a uma última questão. O que se esconde por trás deste grupo, que tem métodos de atuação tão similares aos nazistas, que buscavam intimidar aqueles que não se alinham com eles?
Ao que parece, o que se esconde é a ganância de algumas consultorias que têm um método de atuação que só um país como o Brasil permite. Estas consultorias, pelo que tenho conseguido compreender, reúnem bons advogados e bons economistas, alguns até renomados e insuspeitos professores, que buscam atuar nas brechas da lei de modo a ganhar comissões com operações de todo tipo. Eles fazem deste tipo de ação um "ganha-pão". Conseguir comissões. Isto está evidente nos contratos que as consultorias que dão suporte à NV Participações mantinham com a empresa, associações como a APVAR e a própria Varig. É escandaloso constatar que advogados que prestavam serviço para o grupo, foram contratados pelo antigo administrador da Varig, o Sr. Bottini (que hoje leva uma vida folgada em Miami), com salários superiores a 70.000 reais mensais. Há documentos que comprovam isso escancaradamente.
Veja quanta ganância e hipocrisia: por um lado, a NV Participações apresenta uma proposta de compra da Varig propondo dividir a empresa, abandonar os trabalhadores e ficar apenas com a parte boa, inclusive os créditos de ICMS e do congelamento tarifário. Por outro lado, o grupo ia a público atacar os sindicatos, dividir os aeronautas e bloquear quaisquer ações que não atendessem seus interesses, evidenciando um trabalho articulado de destruição da organização dos trabalhadores para garantir a compra privilegiada da companhia com dinheiro público.
Estou lidando com este tema há pouco menos de um ano e me surpreende que muitos aeronautas que convivem com o grupo há cinco anos ainda não se deram conta dos reais interesses desse grupo.
E hoje? Vejo uma grande revolta dos trabalhadores contra este grupo, que acabou de inviabilizar o
recebimento do FGTS pelos demitidos em mais uma operação judicial de sucesso. Aliás, começo a achar relevante uma nova investigação, que estou articulando em parceira com jornalistas cariocas que cobrem o judiciário: fazer uma relação dos juízes, juízas, desembargadores e desembargadoras que dão sentenças favoráveis a este grupo e tentar compreender que tipo de relações e interesses unem estas pessoas. Vai ser interessante analisar os resultados.
Está evidente que o grupo luta, hoje, para destruir a Varig e impedir que a empresa se rearticule. Eles querem não só destruir a "nova" Varig, mas também a Nordeste e o Centro de Treinamento da empresa.
Vejo isso claramente porque o grupo impede sistematicamente que avance o plano de recuperação da empresa, buscando claramente o comprometimento da companhia através de uma série de ações judiciais bem sucedidas, que deixam dúvidas sobre a isenção de alguns juízes e juízas. Mas são apenas eles? Claro que não. O grupo tem muitos companheiros na tarefa de destruir a Varig. Qualquer um que lê jornal já percebeu que, além do grupo, há outros grupos interessados em que isso aconteça, como a Anac, do Governo Lula; o Sindicato das Empresas Aéreas, que hoje deveria se chamar STG (Sindicato da TAM e da Gol); e um batalhão de escritórios de advogados que, como abutres, esperam o fim da Varig para vender
seus serviços aos aeronautas desamparados, a começar pelo escritório que presta serviço ao grupo.
O que falta fazer para que as pessoas entendam o jogo que está sendo jogado e percebam os reais interesses que se escondem por trás desses grupos? Podíamos começar convocando uma missa, porque, ao que parece, só resta mesmo o consolo das orações. Estranho o silêncio dos aeronautas em pleno ano eleitoral, quando os políticos são mais sensíveis. Por que não organizar uma marcha ao Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, e cobrar publicamente os 460 milhões de reais que o governo chuchu paulista deve à Varig e que quitaria todos os débitos trabalhistas? O que falta para fazer isso?
Mas, falando sério, acho mesmo que o que falta é que as pessoas de bem, como muitos que estou conhecendo ao longo deste percurso, dêem um basta a esta situação e tomem uma decisão. Decisão! É preciso decidir! Se o aeronauta está com o grupo, então que o diga e una-se ao TGV na tarefa de destruir a Varig. Se não está, que o diga, se posicione contra as manobras e apóie as ações desempenhadas por gente de bem com o objetivo de tirar a empresa da beira do precipício. É isso! É hora de ter coragem! E, além de coragem, é hora de compreender o que realmente está ocorrendo. Pessoas desinformadas são facilmente manipuladas. Foi assim com o nazismo. É assim neste caso da Varig. É assim com este país que vive um momento de profunda vergonha e vai reeleger um governo evidentemente corrupto para mais quatro anos de humilhação.
No encontro entre o Sr. Miguel Dau, os aeronautas e aeroviários em São Paulo, vi uma comissária entristecida, a um canto, com lágrimas nos olhos e lhe perguntei se ela estava bem. Ela sorriu, limpou as lágrimas e disse: "Estou bem, mas totalmente perdida. Queria confiar em alguém". Esta é tarefa de homens de bem. Fazer com que esta extraordinária lutadora que é esta comissária passe a confiar em alguém que realmente mereça confiança e não em oportunistas que jogam claramente para destruir a empresa que você, ela e muitos outros, ajudaram a criar e mantiveram até agora a salvo das serpentes que agora a devoram.
Eu, como jornalista, como estudioso de culturas organizacionais, posso ajudar, quando muito, escrevendo estes textos .Mas a salvação da Varig e dos empregos que ela representa vai depender da ação de gente honesta e idealista.
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