Na primeira semana à frente da Varig, o empresário Marco Antonio Audi participou de uma reunião atrás da outra na sede da empresa, no Rio de Janeiro. Celulares e telefones fixos tocavam ao mesmo tempo. Num raro intervalo, concedeu entrevista a Época, na quinta-feira, dia 27, no início da noite. Audi, de 45 anos, promete recuperar a Varig. Afirma ter nove anos para isso. Sua experiência no ramo de aviação estava limitada, até então, ao gerenciamento de uma empresa de helicópteros. Virou dono de um ex-império. Ao lado do misterioso Lap Chan, o |
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chinês que representa um fundo de investimentos americano, Audi diz que eles estão prestes a fazer nova oferta por uma empresa do ramo.
Época - Como surgiu sua parceria com Lap Chan? Como ele chegou até você?
Marco Antonio Audi - Tenho outras empresas com participação de fundos de investimento. Esses fundos me procuraram e, por acaso, o Lap me foi apresentado por um consultor como um investidor que procurava negócios no Brasil.
Época - Que outras empresas são essas?
Audi - Um exemplo só é a HeliSolutions. Tem a RioBravo (do ex-presidente Gustavo Franco) no meio. Uma outra tem o fundo Fênix.
Época - Quando vocês se conheceram?
Audi - Há quase dois anos.
Época - Por que comprar uma empresa com tanta dificuldade e não montar uma nova?
Audi - Deixa eu explicar como começou meu relacionamento com a Varig. Contratei para ser presidente da HeliSolutions uma pessoa que foi diretor da Varig por 18 anos, o Walterson Caravajal Júnior. A gente batia papo e ele falava para mim: 'você que é um cara para a frente, estuda alguma coisa com a Varig, que está em crise'. Assim começou. Esse pessoal que trabalha na Varig tem um amor muito grande pela companhia. Primeiro olhamos a VEM, depois a VarigLog, e aí a gente se interessou pela VEM. Nisso, eu atraí o fundo Matlin Patterson e o Lap Chan, que é um dos integrantes do fundo, para estudar o negócio.
Época - Como será a Varig no ano que vem?
Audi - Se der tudo certo, pretendemos ter uma empresa com algo entre 50 e 60 aeronaves no ano que vem. Não sei de cabeça a participação de mercado que a gente quer ter, sei que o mercado está crescendo demais e quero voltar a ocupar o espaço que a Varig já teve.
Época - O senhor acha possível voltar a ter 80% dos vôos internacionais?
Audi - Não, não, não, de maneira alguma, não tem mais espaço para isso. Quero voltar a ocupar parte do espaço. Não sei quanto vamos conseguir.
Época - Há uma grande expectativa entre os funcionários sobre demissões. O que está decidido?
Audi - Na realidade, as pessoas falam em demissão, mas elas já estão demitidas. Não recebem salários há meses. Acho que o importante é quanto de empregos vamos gerar. Hoje é algo em torno de 1.700 diretos.
Época - O que significa isso, aproveitar o pessoal da Varig velha?
Audi - Todo o pessoal.
Época - Não tem espaço para todo mundo...
Audi - Não tem hoje pelo número de aviões no ar. Mas, cada avião que acrescentamos são mais 100, 150.
Época - Sendo assim, se vocês pretendem voltar a ter algo como 60 aeronaves, estamos falando de 6 mil funcionários?
Audi - Até 7 mil e pouco.
Época - E os boatos sobre demissões?
Audi - Eu estou preocupado em gerar emprego.
Época - O que vai acontecer? Vão formalizar as demissões na Varig antiga e recontratá-las na nova?
Audi - Como vai ser na Varig antiga eu não sei porque não tenho nada a ver com ela. Essas pessoas serão contratadas pela empresa nova. Nosso compromisso moral é aproveitar e priorizar os funcionários Varig.
Época - E quanto à parceria do Matlin Patterson, é sabido que o negócio deles é recuperar a empresa e vender depois. É o que vai acontecer com a Varig?
Audi - Sem dúvida. Esse fundo que participa da Varig tem nove anos de vida. Começou agora e temos nove anos para sair do negócio. Esse negócio poderá ser vendido no mercado, para nós mesmos. O fato é que eles vão sair. É o mandato do fundo.
Época - O fundo trouxe todos os recursos do investimento?
Audi - Parte é deles, parte é nossa.
Época - Qual o percentual que coube a cada um?
Audi - Não tenho isso na mão agora para te dizer. Da Volo do Brasil, temos (os brasileiros) 80% do capital votante. Metade é votante e metade preferencial. Temos a maior parte do votante.
Época - Quer se concorde com o Código Brasileiro de Aeronáutica ou não, há uma limitação à participação estrangeira no controle de concessionárias e o senhor sabe que a concorrência está questionando isso.
Audi - Uma coisa chama-se origem do dinheiro, que é equivocada, e outra é origem do capital. É preciso diferenciar as coisas. O que está sendo discutido é a origem do capital. Estamos 100% à vontade porque tudo nosso foi aberto à Anac e ao Ministério Público. A gente jamais serviria para um papel desses.
Época - De ser laranja?
Audi - Exatamente. Não tenho perfil para isso, basta ver meu perfil empresarial.
Época - Qual a diferença da origem do dinheiro e do capital?
Audi - As pessoas falam que o dinheiro é estrangeiro. Tudo o que veio para o país está registrado no Banco Central. Nõa tem nada vindo de paraíso fiscal. São países que mantêm relações com o Brasil. Está tudo aberto. Tudo o que veio do estrangeiro está registrado.
Época - Qual o papel do Lap Chan nessa história? Ele vai ter alguma função?
Audi - Não. Ele é um dos integrantes e sócios do fundo. São muitos e muitos sócios do fundo que têm negócios no mundo inteiro, embora seja a primeira vez no Brasil.
Época - Mas de todos esses sócios só o Lap Chan aparece no Brasil, participa de reuniões. Até no leilão ele estava. Ele acompanha o dia-a-dia da Varig de perto?
Audi - São reuniões que, às vezes, precisam dele presente para a gente tomar certas decisões. Não a respeito da empresa, mas sobre investimentos. É completamente diferente. Por exemplo, vamos fazer uma oferta a outra empresa que não posso revelar o nome agora, mas também da área de aviação, não é que a gente vai chegar para um fundo e falar 'manda' tantos milhões que a gente vai comprar uma empresa. Eles têm que vir, olhar. Por isso a presença do Lap, dele e de outros integrantes do fundo, para estudar o negócio. Ou não dá para decidir nada. As pessoas falam muito. Se eu não o convencer de que o negócio é bom, seguro e tem retorno, você acha que ele vai investir? Não vai. Ele é responsável por esse dinheiro.
Época - O Matlin Patterson tem alguma outra experiência no ramo de aviação sem ser a ATA Airlines?
Audi - Não.
Época - O senhor é do ramo de solventes também?
Audi - Temos a RAudi, que é a maior fabricante de bicarbonato de sódio do país. Sou eu e um irmão. Temos também no ramo de química uma de impermeabilizantes, de tintas, a Primax Indústria e Comércio. Em todas eu faço parte do conselho.
Época - O senhor está a par das suspeitas levantadas sobre a aparente falta de recursos próprios ou experiência. O que acha disso?
Audi - O crescimento de um grupo depende de se galgar um degrau. E há três maneiras de fazer as coisas: com o próprio dinheiro, com empréstimos ou sócios. Minha estratégia é, preferencialmente, atrair sócios porque aí você fica com uma empresa sadia, sem dívidas. Não é dar um passo maior que as pernas, mas uma empresa pega empréstimos porque, obviamente, não tem dinheiro em caixa para crescer. A RAudi foi construída com financiamentos.
Época - Quais serão os próximos passos da Varig?
Audi - Teremos ainda muitas novidades. Estamos incomodando porque não era previsto que a Varig sobrevivesse. A concorrência não gostou disso e vai lutar até o final, mas viemos para ficar e tomar nosso espaço no mercado. Em apenas quatro dias úteis, a Varig já consegue botar seus passageiros em hotéis, já tem vários aviões renegociados. Vamos ter ainda muitas novidades. Star Alliance voltou a atender a gente. O Smiles não só permanece como terá ainda novidades. Estamos contratando consultorias de fora especializadas em programas de milhagens e vamos honrar todas as milhas dos passageiros.