Foi com um choro contido e muita emoção que o comandante Juarez Silva, 48 anos, 32 dedicados à Varig, fez ontem seu último vôo, de Fortaleza para Guarulhos, em um Boeing 737. “O vôo estava lotado”, diz com certo orgulho, para depois se lembrar que tantos passageiros não eram sinal de sucesso, mas de crise, conseqüência dos cancelamentos. “Eu me preparei (para não chorar). Já tinha sofrido muito antes.”
Quando a direção da Varig anunciou a lista dos 5,5 mil demitidos, Silva suspeitava que seria incluído por ser novato no posto de comandante, tendo sido promovido há um ano. “Fiz minha parte na associação de pilotos (Apvar). Briguei, fui para o Rio, para Brasília. Acreditei e paguei para ver”, diz ele, que culpa a Fundação Ruben Berta e o governo Lula pela situação. “A Fundação entregou os dedos para não entregar os anéis. E eu votei nesse tal de Lula e estou pagando por isso.”
Silva ainda não havia procurado outro emprego, como muitos de seus colegas, pois tinha esperança. E continua tendo. “O chinês (Lap Chan, sócio do fundo Matlin Patterson, um dos novos donos da Varig ) precisa trazer 80 aviões para recuperar o investimento. Aí eles terão de recontratar. Quem sabe não volto.”
Divorciado com duas filhas de 18 e 20 anos, ele pretende tentar a sorte no exterior, quem sabe na Índia. Em 2003, com a crise já se agravando na Varig, Silva passou um ano e meio voando como co-piloto na Vietnam Airlines. “Hoje estou sobrevivendo com as economias que juntei no Vietnã”, conta o comandante, que há quatro meses não recebia salário. “Felizmente o mercado está aquecido. Não me venderei por qualquer preço.”
Silva entrou na Varig em 1974, como mecânico em Porto Alegre e começou a voar, ainda como mecânico, nos antigos Electras. Era co-piloto até um ano atrás, quando foi promovido a comandante. “Estou começando”, disse ele, antes de entrar em um ônibus desbotado alugado pela Varig que levaria a tripulação de seu último vôo para casa - muitos definitivamente, outros com futuro ainda incerto.