A drama financeiro sem precedentes vivido pela Varig, ícone da aviação civil no país, não reflete uma crise no setor aéreo comercial no país. Muito pelo contrário. Nos últimos anos, ele vem desfrutando de um período contínuo de aquecimento. Das grandes companhias, como a Gol e a TAM, às de menor porte, como a Ocean Air, todas planejam expressivas contratações até o fim do ano, com a a ampliação do quadro de funcionários. Se entre as maiores, parece haver um pacto velado de não comentar se aproveitarão as brechas abertas pelas abruptas baixas na operação da Varig na hora de contratar pessoas, entre as pequenas há quem não hesite em dizer que pretende ocupar o espaço de mercado deixado pela pioneira da aviação comercial no Brasil e usar seu pessoal.
Quem estuda o assunto, enfatiza que a má sorte da Varig coincide com um período de bonança para este mercado no país - o setor aéreo é apontado como um dos mais sensíveis ao desempenho da economia. "Estimativas das mais até as menos otimistas dão conta de um crescimento de 10% a 18% do segmento neste ano - o setor responde por 3% do PIB", lembra o professor Richard Lucht, diretor acadêmico de pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), professor conferencista do Instituto Tecnológico de Aeronáutica e estudioso dos negócios do setor aeroespacial no Brasil.
A demanda justifica o aquecimento. Só nos quatro primeiros meses de 2006, o tráfego de passageiros domésticos no mercado brasileiro foi de 12,8 bilhões RPKs (passageiro-quilômetro transportado), o que representa um crescimento de 20,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Em 2005, o RPK doméstico cresceu de 5,5 bilhões para 33,7 bilhões, um aumento de 19,4% sobre 2004. A Gol já se pronunciou afirmando que grande parte do crescimento do mercado pode ser atribuída ao "efeito Gol", baixas tarifas estimulando o aumento da demanda de viagens aéreas. Lá, até o fim do ano, está previsto o recrutamento de profissionais para as áreas de tecnologia da informação, jurídica, recursos humanos, marketing, financeira, manutenção, técnica, planejamento, projetos e aeroportos. Assim como a Gol, outras companhias estão recrutando para a linha de frente e para a área operacional.
Na última semana, a Gol revisou inclusive seus planos de expansão e elevou para cima suas metas. De janeiro a maio, a companhia recrutou 1.260 colaboradores e pretende contratar, de julho a dezembro, outros 1,2 mil. Só em maio foram admitidas 600 pessoas. A expansão segue no ritmo do ano passado, quando a companhia abriu 2,7 mil novos postos de trabalho. Por questões estratégicas e negociações em bolsa, a empresa não revela prognósticos.
Também na semana passada, a Ocean Air, a número um da aviação regional no país, que operava com dois aviões, colocou em operação mais dois. E antecipou tarefas do seu plano de expansão. Carlos Ebner, presidente da Ocean Air, é mais enfático. Estamos tentando ocupar o espaço que a Varig deixa, afirma. Ela tinha 70 aviões voando e agora tem uns 20, exemplificou. Ebner explica o entusiasmo pelo fato de o mercado doméstico crescer uns 15% ao ano. Diferentemente de outras companhias, ele revela que pretende aproveitar o pessoal que trabalhava na Varig. "As pessoas de lá que forem bem qualificadas e que tivermos necessidade, vamos recrutar, sim", diz.
A TAM, que toma a dianteira no mercado, com 44,3% de market share, por exemplo, em março do ano passado tinha 8.550 funcionários, e agora contabiliza 10.240. O recrutamento não deve ser tão grande quanto o do ano passado, mas prosseguirá "na medida que forem chegando os novos aviões encomendados para ampliar a frota", destacou Roberto Hobeika, diretor de gestão de pessoas da TAM.
Hoje, a TAM tem 83 aeronaves em operação. Na última quarta-feira, anunciou assinatura de um memorando de entendimento para a aquisição de mais 37 aeronaves Airbus. Serão 15 Airbus A319, 16 A320 e seis A330 para entregas até 2010. Esses novos aviões somam-se a outros 29 Airbus A320 de um contrato anterior assinado no ano passado para entregas no mesmo período e que contempla ainda mais 20 opções de aeronaves dos mesmos modelos.
Deve chegar a 96 aviões até o fim do ano. No primeiro trimestre, a companhia fundada pelo comandante Rolim comemorou lucro histórico, R$ 111 milhões, o maior já obtido por ela em um trimestre, o que equivale a 103% a mais do que em igual período do ano anterior. "Estamos agarrando oportunidades", observa Hobeika. "O mercado está mais aberto, as pessoas andam mais de avião, a economia está mais ativa e o país tem estimulado o setor."
Na Gol, que está no período de silêncio, as metas são ousadas. Quer ser reconhecida até 2010 como a companhia aérea que popularizou o transporte aéreo na América do Sul, com alta qualidade e baixos custos. Para os próximos cinco anos, estima-se que o tráfego de passageiros na região sul americana cresça a uma taxa superior a 7% ao ano, o segundo maior índice do mundo depois da China, de acordo com estimativas da Boeing. Para 2006, a Companhia espera que o mercado brasileiro cresça mais de 18%.
Em 1950, a aviação comercial no Brasil cobria 358 cidades, hoje não chega a 120. Como o Brasil tem 5 mil municípios, só 2% são atendidos. "E os outros 98%? ", indaga o professor Lucht, para ilustrar o tamanho do potencial da aviação regional no país. Nos idos de 50, um avião partia para um destino e tinha de fazer escalas em várias pequenas cidades, mas a tecnologia evoluiu. Vieram os jatos e os pontos de parada saíram dos roteiros aéreos.