O banco BRJ, especializado em financiamentos imobiliários e operações estruturadas, e o Trabalhadores do Grupo Varig (TGV), por meio de uma sociedade de propósito específico (SPE) chamada NV Participações, protocolaram, na quarta-feira, propostas no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para participar de um empréstimo-ponte para a Varig.
Ao todo, três grupos se mostraram interessados em obter o financiamento do banco, que não divulgou oficialmente o nome dos interessados. A expectativa é de que até a próxima semana o BNDES informe qual grupo foi habilitado para receber o crédito. A instituição de fomento pode liberar até US$ 166,7 milhões (cerca de R$ 370 milhões ao dólar de ontem) ao investidor interessado em fazer o empréstimo-ponte à Varig como parte do pagamento no leilão de venda da empresa aérea, previsto para ocorrer na primeira semana de julho.
Marcelo Bastos, consultor associado ao BRJ, compareceu ao BNDES horas antes de acabar o prazo para apresentação das propostas. Diferentemente das condições apresentadas pelo banco, a idéia do BRJ é que o BNDES subscreva um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FDIC), que passará a comprar os recebíveis gerados pela Varig num limite de até R$ 350 milhões.
"Não temos interesse em participar do leilão, mas quando o BNDES anunciou que colocaria no edital uma cláusula dizendo que o comprador da companhia terá que reembolsar os custos desse empréstimo-ponte ao investidor que assumiu o risco, nos interessamos", diz Bastos. "Nossa proposta é diferente da que foi apresentada pelo BNDES, mas oferece segurança e remuneração."
O BRJ é um banco de pequeno porte com sede no Rio de Janeiro. Nos últimos 30 anos tem se voltado mais para a área de crédito imobiliário. "Mas enxergamos nessa operação uma possibilidade ampliar nosso leque de atuação", afirmou Bastos.
Paulo Rabello de Castro, consultor econômico do TGV, por sua vez, afirmou que a NV Participações é uma espécie de "empresa de papel" (veículo societário). "O o intuito seria de veicular os créditos concursais e extra-concursais dos trabalhadores da classe 1", disse o consultor. Segundo ele, as estimativas são de que esses créditos possam somar até US$ 100 milhões.
De acordo com Rabello de Castro, também está sendo desenhada a hipótese de que parte de salários futuros dos trabalhadores da nova Varig (que façam esta opção) possa ser convertida em investimentos. "Funcionaria como uma espécie de crédito consignado", diz ele, lembrando que os valores poderiam ser antecipados por uma instituição financeira.
O consultor informou ainda que há negociações em curso com investidores locais e estrangeiros como tentativa de formar uma espécie de consórcio para participar do leilão, do qual a NV Participações poderia ser uma investidora minoritária. O BNDES divulgará nos próximos dias as condições para o financiamento dos interessados em participar do leilão.
A Varig também negocia a liberação do empréstimo-ponte diretamente com 14 grupos também dispostos a participar do leilão, que se credenciaram junto a companhia aérea. Essas empresas, cujo nome a Varig pretende manter em sigilo, utilizariam os bancos de seu próprio relacionamento para obtenção do empréstimo.
Em paralelo, a Varig também negocia com fornecedores o alongamento de prazos de pagamento para enfrentar o período de baixa temporada (abril, maio e junho) e ter condições de continuar voando até o leilão. Uma das negociações mais duras está sendo com a BR Distribuidora, uma de suas principais credoras. Nem mesmo uma reunião de seis horas na quarta-feira entre a aérea e a estatal foi suficiente para as partes chegarem num acordo.
A Varig reivindica prazo de pagamento de até 51 dias para o fornecimento de combustível de aviação. Na audiência de quarta-feira com o juiz da 1ª Vara Empresarial, Luiz Roberto Ayoub, as duas empresas fecharam acordo emergencial, no qual ficou decidido que a BR fornecerá combustível sem cobrar à vista da Varig até hoje. Outra reunião está marcada para esta sexta-feira para a negociação das condições de fornecimento do combustível da próxima semana.
A Varig já não paga pelo fornecimento do combustível à BR há nove dias, o equivalente a cerca de US$ 9 milhões. Ficou acertado que a companhia vai transferir à estatal recebíveis de cartão de crédito para abater o valor dessa dívida recente. Os recursos são relativos a bilhetes vendidos que ainda não foram pagos à Varig. O Valor apurou que a BR está estudando negociar semanalmente com a Varig a concessão desses prazos até a abertura do data-room da companhia, previsto para daqui a cerca de 20 dias. Com isso, a estatal tem condições de avaliar, a cada semana, as garantias oferecidas pela aérea.
Ontem, o Fundo de Investimentos em Participação (FIP-Controle) da Varig foi registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pelo gestor banco Brascan. O FIP, que, a princípio, será composto pelas ações da Fundação Ruben Berta (FRB), funcionará como novo núcleo de controle e gestão da Varig. As ações da FRB serão convertidas em cotas do FIP a valor de mercado, conforme determinou o juiz da Ayoub. A expectativa é de que isso ocorra em no máximo duas semanas. Isacson Casiuch, diretor executivo do Brascan, disse ao Valor que o banco encaminhará à Bovespa, entre hoje e segunda-feira, levantamento do valor das ações da empresa nos últimos 30 pregões para calcular o valor das cotas.
Comentário da Direção Sindical:
TGV e NV Participações de olho nos nossos salários
Desde que começou a crise da Varig, a posição da empresa TGV e NV Participações já era explícita: ser dona da companhia aérea. Mas não assumia nunca. Finalmente o pano caiu e este grupo assumiu o seu verdadeiro papel ao se associar ao Banco de Investimentos Imobiliários BRJ para disputar a compra do Grupo Varig.
A empresa TGV e NV Participações quer usar dos nossos salários passados, presente e futuros para, em interesse próprio, disputar o controle da Varig. Isso significa demitir 2.900 trabalhadores e reduzir também os benefícios da categoria, conquistados com muito sacrifício ao longo de anos. Trata-se de um projeto de poder e não de cidadania e direito dos trabalhadores.
As procurações assinadas por vários funcionários em favor da empresa TGV e NV Participações, não dá o direito a ninguém de utilizar este instrumento para participar da disputa pela compra da empresa. Em nenhum momento foi convocada qualquer assembléia para decidir uma parceria empresarial com um banco comercial e privado, com os direitos trabalhistas e previdenciários dos trabalhadores.
O SNA alerta a todos que mais uma vez este pequeno grupo, intitulado trabalhadores da Varig, nunca esteve interessado na defesa de nossos empregos e nossos salários, pelo contrário, querem usar os nossos créditos trabalhistas para fazer negócios para seus próprios interesses.