AVIAÇÃO CIVIL BRASILEIRA
O desafio de transformá-la em um sistema moderno, ágil e atualizado
Por Comte Célio Abreu
As tragédias da mid-air collision – entre o Boeing da GOL e o Legacy da aviação executiva americana –ocorrida no espaço aéreo brasileiro, no final de 2006, e, recentemente, do AIRBUS da TAM, colocou o Brasil frente a um novo desafio: o de transformar a Aviação Civil Brasileira num sistema moderno, atualizado, eficiente e ágil o suficiente para conquistarmos excelência no uso dos seus recursos humanos, operacionais e tecnológicos.
Gerenciar o transporte aéreo transcende, em muito, a obrigação de mantê-lo num alto nível de Segurança Operacional. De fato, está muito além disto e do simples ato de cumprir os regulamentos. A aviação, como atividade econômica, deve ser, também, um negócio atraente, lucrativo, eficaz, confiável e, principalmente, uma atividade geradora de empregos duradouros a ponto de responder às constantes demandas, por vezes impetuosas e urgentes, ocorridas no setor, várias das quais requerendo ações céleres e precisas.
Mas como executar tal tarefa hoje no Brasil?
Há duas vertentes por analisar: a do Poder Público e a do Poder Privado.
No que concerne ao Poder Público, como primeiro passo, há que se reconhecer as deficiências, distorções, falhas e problemas sistêmicos, ativos e latentes, os quais necessitam de tratamento e cuidados técnico-administrativos específicos.
O segundo passo, seria a realização de auditorias independentes e periódicas (técnicas/administrativas/tecnológicas) em todo o sistema de aviação para que os resultados forneçam avaliações capazes de proporcionar aos gestores a condição de priorizar investimentos e orientar as suas ações administrativo-gerenciais mais importantes.
Essas duas primeiras etapas justificam-se porque, de fato, só se conquista modernidade e excelência para uma atividade complexa como a aérea no momento em que se obtém a condição de estar, pelo menos, uma década adiante da atualidade no que tange aos atos de gestão, situação que permite aos gestores vivenciar o futuro sem as preocupações trazidas do passado.
Ações adequadas de gestão na aviação estão relacionadas com aquelas que trazem o futuro para o presente, com base em planejamentos cuidadosos e realizáveis, e sem o temor de inovar para garantir e incentivar as melhores práticas administrativo-operacionais dentro do sistema que a governa. Estar conectado com o futuro representa estar organizado no presente. Quem não está com o presente organizado não consegue resistir às pressões do dia-a-dia e perde a condição de pensar no futuro. E isto faz toda a diferença.
O derradeiro passo a ser dado pelas autoridades, de importância vital para o equilíbrio do negócio-aviação, é a educação corporativo-funcional. Capacitar, instruir, treinar, avaliar e motivar continuam sendo ações essenciais de gestão, mas hoje não são mais suficientes para se obter o sucesso continuado na formação dos recursos humanos para o setor. Há que existir um programa de identificação e desenvolvimento de talentos, associado a um plano consistente de retenção e reserva destas inteligências diferenciadas. Isto permitirá a conquista de uma excelência sustentada, a qual possibilita manter exemplos de lideranças completas no sistema, aquelas que sempre estarão preparadas para lidar com o futuro, normalmente incerto e desafiante.
Outro aspecto fundamental é a visão gerencial coletiva, a que consente a macro-visão setorial. O mundo de hoje tem vitrine única e a globalização vem impondo uma nova postura aos que desejam administrar a Aviação Civil, com base numa visão tão ampla quanto possível, notadamente em se tratando de um setor que vive do movimento e para o movimento.
Não basta mais planejar corretamente; há que se evitar o atraso na execução das ações planificadas. Deixar de investir em infra-estrutura na hora certa, ou chegar depois dos outros no que se refere ao preparo tecnológico, pode significar decadência, inocuidade ou perda de oportunidades, situações por vezes impiedosas e cruéis com gestores retardatários.
Lidar com o atraso de forma aquiescente pode mantê-lo por perto de nós anos a fio. A Aviação Civil não suporta a falta de movimento, flexibilidade e velocidade porque isto representa o bloqueio de idéias e de ações fundamentais para a sua própria evolução.
Além disto, o estado democrático de direito pede uma transparência nas ações públicas que, sem qualquer sombra de dúvida, ainda está muito ausente nas questões relacionadas com a Aviação Civil do país.
E, hoje, é lamentável que alguns setores do Sistema Brasileiro de Aviação Civil estejam num literal estado de atraso gerencial, a ponto de terem perdido a visão de que são, essencialmente, prestadores de serviços à sociedade civil, usuária do transporte aéreo, afastando cada vez mais o foco de suas instituições do bem comum. Chego a pensar que há, compulsivamente, uma luta insana pela manutenção do status quo, a qualquer custo, posicionando em plano muito inferior a conquista do progresso, da modernidade, da excelência na prestação de serviços e da evolução gerencial para o setor aéreo do nosso país.
Isto tudo nos obrigará a voltar no tempo, em alguns segmentos da atividade, para recomeçar um trabalho com base em nova cultura sistêmica, a qual permita construir um ambiente administrativo-operacional capaz de inovar, de diversificar, de prosperar e de fortalecer administrações integradas, todos estes requisitos mínimos para alcançarmos um sucesso sustentado na gestão da Aviação Civil Brasileira.
E na outra ponta do setor aéreo encontramos o Poder Privado, representado pelas empresas aéreas, como concessionárias do transporte aéreo que são. A elas sempre cabe entender que, apesar da aviação ser um negócio que precisa ser lucrativo, por meio de investimentos permanentes e administrações competentes, ela é, antes de tudo, um bem público. E isto faz com que, frente a problemas sistêmicos no ambiente de aviação, a responsabilidade no encontro de soluções rápidas e factíveis seja compartilhada com o Poder Público, de forma a dar aos profissionais da atividade e aos usuários deste modal de transporte a certeza de que todos os gestores do sistema, de maneira integrada, estão envidando esforços para eliminar as deformidades e manter a atividade dentro do desejado espectro de equilíbrio.
Deve-se lembrar que o Poder Privado também é fiscal do Poder Público, e vice-versa, em nome da sociedade civil, a que financia e sustenta ambos os poderes e tem que confiar cegamente na competência dos seus administradores e operadores ao utilizar o transporte aéreo do país. Por fim, ainda nos falta coordenação e planejamento únicos.
O premiado consultor austríaco-americano Peter Drucker, mestre e guru dos administradores contemporâneos, já previa, em 1988, que “...em vinte anos (exatamente o nosso atual momento - 2007) as empresas e as organizações governamentais terão que se fundamentar no conhecimento, com especialistas que dirigirão e disciplinarão seu próprio desempenho mediante feedback organizado dos seus colegas e clientes... É muito mais provável que elas se assemelhem a organizações que hoje nem os gerentes profissionais nem os estudantes de administração dão muita importância: ...a uma orquestra sinfônica”.
Como declarou o novo Ministro da Defesa, o Dr. Nelson Jobim, há ausência de coordenação na Aviação Civil Brasileira. Estamos com a nossa orquestra sinfônica desorganizada, sem brilho e sem um regente que assuma a batuta, o que leva cada um dos seus músicos a executar a sua própria melodia, de forma desafinada, em ritmos diferentes, com ausência de musicalidade, por estarem lendo partituras distintas, e sem a preocupação de criar uma harmonia coletiva mínima que permita ao conjunto sinfônico evoluir e cumprir os requerimentos cada vez maiores da Aviação Civil. E esta demonstração de consciência sistêmica do ministro nos trouxe esperança.
O uso da inteligência coletiva para o bem comum pode nos levar a resgatar o respeito e a dignidade da Aviação Civil Brasileira. Mas, para isto, temos que abandonar o estado letárgico que a gestão da aviação se encontra mergulhada. Não há mais que se tolerar a falta de ações, com o firme propósito de debelar a crise que assola o setor aéreo. O tempo de diagnosticar as causas deste cenário adverso já foi ultrapassado. Apressemo-nos em dar os remédios ao doente ou ele agonizará, tendo-nos como meros expectadores privilegiados. Basta de discursos prolixos e de perplexidade. Não podemos acreditar na existência da normalidade sem que estejamos trabalhando para obtê-la, já que somente a crença nada nos garante. Em respeito à memória das centenas de pessoas que se foram nos dois maiores acidentes aéreos da nossa história, e da dor de suas famílias e do povo brasileiro, não podemos mais esperar. A hora é de agir.
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