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AVIAÇÃO CIVIL BRASILEIRA

Retenção de talentos: o desafio contemporâneo.
Cmte. Célio Eugênio de Abreu Jr.

Hoje em dia, tanto a preparação como a retenção de talentos é um constante desafio para os que lidam com gestão de pessoas. E o Sistema Brasileiro de Aviação Civil também está sendo desafiado a mostrar a sua competência nesta área, tão nevrálgica para a manutenção, em níveis razoáveis, da qualidade dos serviços aéreos e da Segurança Operacional. O fato é que, dia após dia, perdemos talentos profissionais para a forma competente de lidar com eles que alguns países estrangeiros demonstram através de suas empresas e de seus organismos governamentais. Na verdade, eles não fazem mais do que valorizar profissionais de qualidade, respeitando o seu conhecimento e sua experiência, além de remunerá-los de maneira bem mais digna do que estamos acostumados a ver por aqui.

O resultado prático disto tudo? Hoje há mais de 600 profissionais de aviação atuando no exterior; produzindo para o sucesso de empresas estrangeiras de aviação comercial. É, no mínimo, lamentável, porque a nossa aviação necessita muito mais deles neste momento de crescimento e aprimoramento.

Nota-se uma série de dificuldades à formação e capacitação de novos quadros para equipar a Aviação Civil do nosso país. Atualmente, olha-se, quase que exclusivamente, para a questão do custo financeiro da formação, como se ele fosse um empecilho intransponível para a solução dos problemas, e não uma parte do investimento necessário à obtenção da qualidade profissional através da formação e do aperfeiçoamento. É uma forma bastante míope de se enxergar a matéria.

Além disto, há uma outra face do problema, tão substantiva quanto a do investimento, que deve ser tratada com seriedade: o envelhecimento e a aposentadoria dos que detêm, há anos, de maneira monopolística, o saber aeronáutico. Ao longo do tempo, não houve preocupação com a transmissão deste saber a outros para se evitar hiatos de conhecimento, os quais podem trazer severos prejuízos ao setor aéreo. E não se vê nenhum dos elos do Sistema de Aviação Civil apresentando um planejamento para que essa situação não se agrave no curto prazo.

No passado, algo semelhante foi visto no exterior, com as políticas de controle da natalidade levadas a cabo em países de primeiro mundo. Elas provocaram um acentuado envelhecimento populacional o qual provocou a abertura dos seus mercados de trabalho para profissionais estrangeiros, por absoluta falta de substitutos para os seus talentos.

E a pergunta que não quer calar é: até onde irá a fuga de talentos na aviação?

Não há como fugir: se não houver maciços investimentos em educação aeronáutica teremos um futuro sombrio para a atividade aérea. A falta de profissionais preparados traz ausência de qualidade, a qual pode levar a gestão do setor a uma má qualidade insuportável ou ao colapso gerencial.

Formar bons professores (team leaders) é o começo de tudo. Em seguida, é fundamental mantê-los sob capacitação continuada. Para isto, há que se realizar programas de ensino e treinamento factíveis e eficazes.

Faz-se necessária a interação dos elos sistêmicos para que apresentem uma solução conjunta para um problema que afeta (ou afetará) a todos, sem distinção. Um pouco do esforço coletivo tornará possível respondermos às dificuldades que estão postas no presente e projetadas para o futuro. E este processo na aviação precisa ser liderado, no meu entender, pela Autoridade de Aviação Civil, no nosso caso a ANAC.

Não tenho dúvidas de que há instituições financeiras, ainda muito poucas nos países em desenvolvimento e em maior número em países ricos, que patrocinariam e/ou financiariam projetos de capacitação profissional e de retenção de talentos, se forem bem confeccionados, estruturados, legalmente fundamentados e com condução política adequada para atingir os seus objetivos. Basta empreendermos um esforço organizado, até porque, como todos sabem, nos países emergentes não há sequer um setor que não vá sofrer com esta carência de profissionais capacitados.

Como um bom exemplo, o Instituto de Empresa, uma escola de negócios espanhola, reconhecida instituição que possui um MBA – Master in Business Administration – o qual figura entre os melhores do mundo, tem um acordo com o Madrid Saving Bank, conhecido por lá como Caja Madrid, para financiar os alunos inscritos nos seus programa de ensino. No mercado americano também há muitas bolsas de estudo e empréstimos disponíveis para aqueles que desejam o aperfeiçoamento profissional, ao contrário do que ainda ocorre em países emergentes, como o Brasil.

“É preciso substituir a fuga de cérebros pela mobilidade de cérebros. É preciso não tirar os talentos dos países emergentes, mas promover a sua mobilidade para que possam estudar fora, voltar e contribuir para a sua própria economia” – afirma o Sr. Santiago Iñiguez, reitor do Instituto de Empresa, a famosa escola espanhola, na edição do mês de dezembro de 2007 da revista Valor.

É inquestionável que há um reconhecimento internacional da capacidade dos profissionais brasileiros. Lá fora, eles são considerados empreendedores, abertos à globalização, diplomáticos, bons gerentes de situações complexas, hábeis no trabalho em equipe e eficazes ao buscar soluções juntamente com profissionais oriundos de outras culturas. E, para valorizá-los ainda mais, demonstram habilidade no trabalho em equipes multidisciplinares e multiculturais.

Os estudiosos afirmam que a área de negócios é aquela que mais sofrerá com a escassez de talentos no futuro. E a aviação insere-se nela. Por isto, ao redor do mundo, esta área da economia já se prepara para investir em aperfeiçoamento e remunerar melhor os profissionais talentosos disponíveis, não só para atraí-los, mas principalmente para retê-los nas suas respectivas atividades.

O Estado brasileiro também precisa manter um nível adequado de investimentos no desenvolvimento de talentos, treinando melhor os seus educadores, em diferentes níveis. E, no meu entender, é aí que entra a Agência Nacional de Aviação Civil, no caso da aviação brasileira. O papel institucional da ANAC, de fomentadora da indústria de aviação, deve ter a educação aeronáutica em alta prioridade. Buscar meios de facilitar a abertura de oportunidades de estudo e trabalho a profissionais do meio é tarefa desta autarquia. É um bom caminho copiar o que já se faz em países como a Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Espanha.

Entretanto esse trabalho de Estado não se resume à troca de livros, de metodologias e de conteúdos. Ele baseia-se, fundamentalmente, em fazer dos professores pessoas bem preparadas para ensinar, que saibam transmitir conhecimento de forma eficaz, partindo dos necessários conhecimentos específicos até chegar aos globais.

Para isto, há que se criar métodos de medição da eficácia dos atuais processos e do presente nível de qualidade do ensino aeronáutico no nosso país. O Estado tem que conhecer as competências do momento para planejar o futuro educacional na Aviação Civil, com mais realismo e adequabilidade. No fundo, isto seria o marco zero de uma nova era na educação aeronáutica.

Lembremos que o talento não é algo somente analítico; ele também envolve o humano e o emocional. Por isto, a preparação de profissionais talentosos deve englobar todas estas áreas da competência, nos níveis pessoal e coletivo, porque as implicações das suas decisões sempre são vistas por eles próprios com profundidade nas áreas social e humana.

A questão do talento também necessita ser tratada de uma forma mais estratégica. Os países que desenvolveram o potencial de profissionais talentosos envolveram tanto o alto escalão governamental como o empresarial para retê-los em suas hostes. Nestes países se descobriu, precocemente, que o desenvolvimento de talentos não é mais uma tarefa exclusiva dos departamentos de Recursos Humanos. Até porque esta questão passou a ser uma estratégia do negócio, no nosso caso do negócio-aviação. As altas administrações das empresas aéreas e da ANAC devem estar mais envolvidas com a construção de programas de treinamento e capacitação dos talentos do setor aéreo. No passado isto não era tão necessário, mas a escassez de inteligências profissionais tornou este envolvimento uma necessidade. E isto pode significar a sobrevivência de um setor vital da economia: o transporte aéreo.

Já é comum em países de primeiro mundo se ver CEO – Chief Executive Officers – de grandes empresas aéreas ministrando aulas, in house, para um seleto grupo interno de profissionais do seu quadro funcional. É uma visível preocupação com a retenção de talentos.

A discussão sobre o tema é longa e profunda, mas quanto mais cedo o setor aéreo despertar para o assunto menos prejuízo terá com a fuga de talentos na Aviação Civil brasileira.

A minha modesta sugestão é reunirmos os interessados para abrirmos os debates no nível das idéias, a fim de formularmos propostas viáveis para execução de projetos educacionais no curto, médio e longo prazos.

Por isto, só resta aos gestores do setor aéreo do nosso país trabalhar para dar início a um novo processo de abordagem à questão da capacitação e retenção de talentos profissionais. Afinal, o tempo não nos permite ficar “deitados em berço esplêndido”.

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