UM PROBLEMA A MAIS PARA AVIAÇÃO COMERCIAL BRASILEIRA
A anunciada escassez de profissionais no setor aéreo
Por Comte. Célio Abreu
Não há dúvida que a educação aeronáutica é um dos mais importantes propulsores da atividade aérea, e a falta dela um problema. Quantas vezes, nos últimos meses, no meio aeronáutico, não ouvimos esta afirmação: “Vão faltar pilotos de linha aérea, engenheiros aeronáuticos e gestores da Aviação Civil”. Certamente, em mais de uma dezena de ocasiões.
“A UNESCO aponta que o Brasil levará
mais de 30 anos para alcançar o nível educacional
dos países desenvolvidos.”
O mundo vive a era do conhecimento, mas ainda estamos bem longe da democratização deste conhecimento em alguns segmentos da economia brasileira. A UNESCO, em estudo feito em 2006, aponta que o Brasil levará mais de 30 anos para alcançar o nível educacional dos países desenvolvidos. Isto é um sinal de alerta para a economia do nosso país, se considerarmos a demanda cada vez mais elevada por profissionais capacitados neste tão badalado mercado global. Afinal, os especialistas internacionais afirmam que o futuro do mundo estará nas mãos dos países que possuírem cidadãos com mais habilidades cognitivas.
A incapacidade do Sistema Brasileiro de Ensino Aeronáutico de entregar ao segmento de transporte aéreo o capital humano com a qualidade que ele exige pode transformar-se num golpe tão duro para o setor aéreo que as conseqüências nefastas desta deficiência podem ser duradouras o suficiente para interromper ou restringir o necessário e desejado crescimento sustentado da aviação comercial brasileira.
Em breve, se não houver uma contundente ação de Governo, com uma Política Pública de Ensino e Capacitação Aeronáutica clara e definida, inclusive com ensino gratuito em universidades públicas, poderemos presenciar empresas aéreas nacionais, autarquias e organismos oficiais ligados ao Sistema de Aviação Civil ficando anos sem preencher vagas essenciais para o funcionamento do sistema, pela total impossibilidade de encontrar profissionais de bom nível, se isto já não estiver ocorrendo. Esta situação é, no mínimo, preocupante por não ter solução em curto prazo.
“A razão para compreender esta situação está na
histórica falta de acessibilidade
da sociedade civil ao saber aeronáutico,
o qual por décadas foi privilégio dos
formados na caserna.”
Com a atual crise aérea a sociedade tem percebido que poucos profissionais no país realmente entendem de Aviação Civil especialmente nos quesitos gestão, tecnologia, técnica-operacional e Segurança de Vôo. A razão para compreender esta situação está na histórica falta de acessibilidade da sociedade civil ao saber aeronáutico, o qual por décadas foi privilégio dos formados na caserna.
Um bom exemplo é o ensino universitário de graduação em Ciências Aeronáuticas que, por anos a fio, somente esteve disponível aos pilotos que concluíam o curso em escolas militares, notadamente na AFA - Academia da Força Aérea.
Da mesma forma, para se fazer mestrado ou doutorado em matérias ligadas à aviação os candidatos necessitam, ainda hoje, possuir formação militar, uma exigência da UNIFA -Universidade da Força Aérea, a única instituição de ensino superior que disponibiliza programas de especialização stricto sensu na área de aviação.
Todavia, para se tentar sair do espectro solitário da UNIFA, um grupo de professores do ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica, também uma instituição militar, está programando a realização de um curso de mestrado em Segurança de Vôo no próximo ano, 2008, em São José dos Campos, interior de São Paulo, com o apoio acadêmico do CENIPA – Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, que permitirá o concurso de profissionais civis. Contudo, os mestres do ITA ainda estão lutando para vencer os vários obstáculos burocráticos que lhes foram impostos para a criação desse programa de especialização, o qual possibilitará a abertura de uma janela de oportunidade para que os trabalhadores do setor aéreo civil possam aprimorar sua formação acadêmica.
Vale apontar que tanto o ITA, em São José dos Campos, quanto a USP, em São Carlos, também têm cursos tradicionais de graduação em Engenharia Aeronáutica, mas ainda formam profissionais em número insuficiente ao demandado pelo mercado porque, na minha opinião, estas instituições de ensino universitário não são adequadamente utilizadas pelo sistema. Além disto, só o Estado de São Paulo tem o privilégio de tê-las.
Por outro lado, para complicar um pouco mais, o modelo dos cursos oferecidos por essas escolas militares – se eventualmente vierem a abrir suas portas para os civis – impossibilita pilotos, gestores e engenheiros aeronáuticos, que estejam empregados numa companhia aérea regular, de fazê-los sem atropelos. Mesmo os cursos mais curtos destas escolas militares – como os de especialização e aperfeiçoamento técnico – não levam em consideração a pouca disponibilidade de tempo oferecida pelas empresas comerciais aos seus funcionários e tripulantes em suas escalas de trabalho.
Hoje já há cerca de 20 universidades particulares brasileiras ministrando os cursos de graduação e pós-graduação – lato sensu– em Ciências Aeronáuticas. Dentre elas ainda existem as que também oferecem o curso de graduação em Gestão de Aviação Civil. Algumas dessas universidades têm acordos com empresas aéreas em São Paulo para oferecer esses cursos superiores indoor (nas instalações empresariais), facilitando a matrícula de seus funcionários. Talvez esta seja uma solução factível para aumentar o número de profissionais capacitados na Aviação Civil: a universidade e ambiente de trabalho, lado a lado.
Todavia, o custo do ensino superior é alto para os que escolhem determinadas profissões aeronáuticas. No caso dos pilotos, além de terem que adquirir os conhecimentos teóricos, gerais e específicos, durante os anos letivos do Curso de Ciências Aeronáuticas, eles ainda têm que cumprir a parte prática. Esta parte refere-se à realização de um número mínimo de horas de vôo, que no caso da formação de um piloto comercial é de 200 horas, sendo elas direfenciadas por qualidade, já que também incluem preparação para vôos por instrumentos e situações emergenciais simuladas, dentre outras exigências.
Hoje, todo o processo de formação de um piloto tem custo financeiro entre R$ 120.000,00 (cento e vinte mil reais) e R$ 150.000,00 (cento e cinqüenta mil reais). E ele deve ser realizado, preferencialmente, ao longo dos três anos universitários para que os exames teóricos e práticos, exigidos pela ANAC para a concessão de habilitação técnica, possam ser feitos ao final do curso e o diploma de bacharel recebido, sem restrições, já que para os pilotos a realização das horas de vôo é pré-requisito para a sua graduação.
Outra situação grave, no meu ponto de vista, deveria estar levando o Ministério da Defesa, em nome do Governo, ao estado de alerta: faltam quatro anos para que todos os militares, administradores e técnicos em aviação, que estão a serviço da ANAC, deixem a autarquia.
“Atualmente já há ao redor de 1.000 tripulantes
brasileirostrabalhando em países europeus, na
China, na Coréiae em Cingapura. E a demanda
tende a aumentar, notadamente se o crescimento
do PIB dos países asiáticos
continuar na casa dos 10% ao ano.”
Conforme prevê a própria legislação que criou a Agência Nacional de Aviação Civil, o processo de substituição dos militares deverá estar concluído em cinco anos, a partir da sua criação, que ocorreu em março de 2006. Entretanto, já no seu primeiro concurso público, que no momento se encontra em processo de finalização, aproximadamente 70 vagas de especialistas de nível superior deixarão de ser preenchidas por reprovação nos testes de admissão e por falta de cumprimento dos requisitos mínimos exigidos para a ocupação dos cargos, por incapacidade dos candidatos. Falta base de ensino aeronáutico. Há que se dar um pouco mais de atenção a esta questão para evitarmos um apagão técnico-administrativo e operacional nos organismos que compõem a Autoridade Aeronáutica, em futuro próximo.
E ainda há o assédio do mercado internacional sobre os nossos profissionais de aviação. Atualmente já há ao redor de 1.000 tripulantes brasileiros trabalhando em países europeus, na China, na Coréia e em Cingapura. E a demanda tende a aumentar, notadamente se o crescimento do PIB dos países asiáticos continuar na casa dos 10% ao ano.
E os salários oferecidos pelas empresas estrangeiras são atraentes. Só para se ter uma idéia, um comandante com experiência internacional recebe, em média, US$ 10.000,00 a titulo de remuneração direta, com vantagens adicionais como o pagamento das mensalidades escolares dos filhos, financiamento com juros subsidiados para a compra de automóveis, moradia gratuita e plano de saúde familiar, dentre outros benefícios.
Por fim, acredito que haverá falta de pilotos experientes e de outros profissionais capacitados em aviação, de uma forma muito mais acelerada do que se imagina, se o crescimento do setor aéreo continuar no ritmo acentuado dos últimos quatro anos.
O desafio, então, é democratizar o saber aeronáutico, oferecer oportunidades de ensino a um número cada vez maior de candidatos e aumentar o ritmo da capacitação de profissionais para que o setor aéreo sofra o menos possível com a escassez que se avizinha.
Por isto, mãos a obra, e que Deus nos ajude. |