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O INCRÍVEL FÔLEGO DOS GRAVADORES DE VÔO

Gravadores no caso, são as tais "caixas pretas", denominação que quase todos sabem ter surgido de mais uma tradução afoita que, veiculada pela mídia de massa, acaba se tornando uma verdade tecnológica.

O termo "black box" - que originou a confusão - surgiu anos antes de existirem as primeiras "caixas pretas" para generalizar o conjunto de equipamentos eletrônicos de bordo, cada qual em sua ( adivinharam ) caixa preta de metal e acomodados em armações ( "racks"), muitas vezes na própria cabine de comando.

E, também, como quase todos sabem, são pintadas de um laranja vivo para facilitar a localização. Mesmo o formato de caixa pode ser questionado diante dos cantos arredondados de alguns modelos especiais.

Enfim, em termos de traduções de fácil assimilação - embora academicamente deficientes - as "caixas pretas" só encontram companhia à altura na tal "tesoura de vento", esta um pouco mais complexa pois a tradução de "wind shear", estaria correta não fosse a existência de um termo técnico idêntico, muito utilizado em engenharia estrutural : "shear" também significa cizalhamento, tensão mecânica que qualquer estudante de engenharia aprende no primeiro ano da escola ( "o esforço que rompe um corpo com o escorregamento dos planos").

As fortes correntes de ar que interagem, deslisam, e se contrapõe estão muito mais para um cizalhamento do que para o "corte" com uma tesoura invisível.

Estas considerações de caráter acadêmico e que não vão mudar em nada o status das caixas pretas e das tesouras de vento, é um aperitivo para falarmos das tais "caixas" agora devidamente identificadas como gravadores de vôo - tanto de dados como de vóz ( sons seria um termo melhor ). Embora só lembrados ( ainda assim sem entrar em detalhes ) nos piores momentos da aviação comercial, eles representam o exemplo máximo de resistência às mais severas condições de pressão, temperatura e impacto.

São estas incríveis características de super-equipamento que geraram uma pergunta que - acreditem - tem para muitos um fundo sério : "Por que um
avião não é construido com a resistência de um gravador de "vôo ?"
Embora só possa partir de alguém totalmente alienado das coisas de aviação, conclui-se que a proverbial resistência destes engenhos já transpôs as fronteiras da desinformação.

De volta ao passado

O gravador de dados de vôo, permite, como diz o nome, registrar as mais diveras condições de operação durante o transcorrer de um vôo.
Nas aeronaves mais novas o equipamento precisa registrar pelo menos 28 parâmetros considerados de importância, começando pelo tempo, altitude,
velocidade, rumo e atitude da aeronave.

Modelos mais evoluidos de gravadores podem registrar mais de 300 características de operação, o que naturalmente facilita a investigação pós-acidente.

Os itens monitorados são muito variados : da posição dos flapes ao "modo" do piloto-automático e dos sistemas de alarmes de fumaça à posição dos pedais do leme.

Os dados resgatados do gravador podem gerar uma reconstrução animada por computador ( atitude, potência, leitura dos intrumentos, etc. ) que,
reproduzida em vídeo, permite aos investigadores visualizarem os derradeiros momentos antes do acidente.

Uma volta a um passado que embora geralmente trágico e doloroso tem de ser revivido pelas valiosas lições que deixa para uma segurança cada vez maior das operações aéreas.

"Bisbilhoteiro" na cabine

O gravador de vóz é aceito com algumas reservas pelas tripulações, principalmente nos Estados Unidos onde a questão "invasão de privacidade" é levada muito à sério.

O simples ato de reproduzir uma gravação, mesmo em âmbito profissional fechado e devidamente qualificado, pelo menos naquele país, é um exercício cercado por uma cortina de sigilo e sempre exige muita sensibilidade das autoridades, empresas, associações e mesmo famílias envolvidas na "bisbilhotice".

De qualquer forma, o tempo de gravação é muito inferior a dos dados de vôo. O gravador de vóz registra não só o diálogo dos pilotos entre si como sua comunicação de bordo por interfone, o diálogo com os diversos postos de controle em terra muitos sons importantes como ruído dos motores, avisos de estol, extensão e recolhimento do trem de pouso e muitos outros.

Destes registros, os peritos podem reconstituir rotações dos propulsores, falhas em sistemas, velocidade e o termpo exato de ocorrência de determinadas panes.

Nos Estados Unidos, as gravações são ouvidas por uma comissão formada pela Comitê Nacional para a Segurança do Transporte ( NTSB ), o FAA, o operador da aeronave acidentada, os fabricantes da aeronave e dos motores e por represetantes do sindicato dos pilotos de linha aérea daquele país.

Esta comissão providencia a transcrição escrita utilizada na investigação. Ela é "cruzada" com a gravação do diálogo entre aeronave e os centros de controle de tráfego em terra para se precisar o tempo exato, necessário para uma reconstituição mais completa do cenário pré-acidente.

Super-equipamentos

Não é preciso ser um especialista em gravadores de vôo para se admirar a
capacidade de sobrevivência ( ao menos, a mecânica ) representada pelas duas "caixas laranjas".
A fantástica resistência que apresentam à pressão, temperatura e impacto e seus sinais de identifcação para facilitar a localização são comuns aos dois.

Ambas resistem à pressão de água existente a 6000 m. de profundidade, a uma temperatura de 1100C por 30 minutos e toleram um impacto de até 3400G's.
Da mesma forma os dois equipaentos fornecem sua posiçào com a emissão de sinais de rádio de um transmissor especial durante 30 dias, em profundidades de até 4200 m.

Enquanto o gravador de dados de vôo opera 25 horas em regime contínuo, o de vóz funciona em 4 canais por 30 minutos ou, nos modelos digitais mais novos, durante 2 horas.

Nos gravadores de dados mais antigos o registro é feito em fita magnética, substituida com muitas vantagnes pela tecnologia digital e os "chips"de memória nos equipamentos modernos.

O local de montagem destes preciosos equipamentos que resistem à maioria das condições nos piores acidentes é sempre na seção da cauda, considerada aquela que reune as maiores chances de "sobrevivência"


ERNESTO KLOTZEL é engenheiro de vôo e jornalista de aviação.

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