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Hooligans, agora nos céus

O caso de Jonathan Burton, 19 anos, passageiro da companhia americana Southwestern, que viajava para visitar seu tio em Salt Lake City, Utah, e foi assassinado a bordo por seus companheiros de vôo em 11 de agosto último é apenas mais um exemplo das conseqüências desastrosas do "air rage" - problema até pouco conhecido, mas que vem sendo observado com freqüência crescente em aeronaves no mundo inteiro.

Quando o avião que cumpria o vôo 1763 da companhia estava a uma altitude de 5 mil metros, preparando-se para pousar, Burton levantou-se de sua cadeira e pôs-se a correr em direção à cabine de comando. Virou-se para os passageiros e gritou "todos sentados!", e em seguida acalmou-se. Poucos instantes depois, no entanto, invadiu a cabine de comando, atacando o comandante. Foi repelido pela tripulação e cercado por outros três passageiros, que o conduziram para uma fileira vazia, imobilizando-o. Burton, no entanto, que fora campeão de luta greco-romana no colégio, voltou a levantar-se e deu um soco na boca de um dos passageiros que tentavam contê-lo - um oficial à paisana.

Começou, então, um verdadeiro massacre a bordo: oito passageiros puseram-se a espancá-lo, até que ele caísse inconsciente, e em seguida ainda pularam sobre seu corpo repetidas vezes. Menos de uma hora depois; já em terra, Burton estava morto, com múltiplos traumatismos da cabeça aos pés.

A "fúria aérea" que acometeu Burton e, em seguida, seus companheiros de vôo, é um fenômeno que preocupa cada vez mais a indústria da aviação. Até recentemente desconhecida ou limitada a casos isolados, ocorreu em pelo menos 5 mil ocasiões em 1999 - só contando as oficialmente registradas. O número verdadeiro certamente é muito maior. Sua intensidade pode variar desde abusos verbais até casos bem mais sérios de agressão, ocorridos em pleno vôo entre passageiros e destes com tripulantes de cabine (caso mais comum) e até pilotos.

Não é preciso sér um especialista em transporte aéreo para saber que distúrbios ou a desordem pura, principalmente em uma cabine lotada, representam uma ameaça para a segurança do vôo - e para a própria imagem da companhia aérea, palco do triste espetáculo. Qualquer desvio, por menor que seja, do comportamento julgado normal - como falar muito alto, andar apressadamente pelo corredor ou mesmo o choro insistente de uma criança - provoca um estado de irritação que pode ser contagiante dentro daquele tubo quase hermético de alumínio.

Se o efeito de uma mera discussão entre um passageiro e uma comissária é avassalador, tentativas bem ou malsucedidas - de agressão física são capazes de causar pavor. Entre as milhares de ocorrências, a mídia especializada se limitou a registrar poucos casos, que se destacam pelo insólito da situação ou pela importância das companhias aéreas envolvidas. Alguns exemplos: um passageiro da Continental Airlines começou a conturbar o trabalho dos comissários cerca de 60 minutos após a decalagem de Anchorage, Alasca, obrigando o comandante a retornar ao aeroporto. O FBI está investigando o caso. Um passageiro da classe executiva da Singapore Airlines, num vôo Cingapura-Londres, foi detido pela polícia no aeroporto de Heathrow por se comportar de modo abusivo com os comissários e as crianças a bordo. No aeroporto de Estrasburgo, França, uma funcionária da Air France foi agredida com um soco no rosto, arranhada e teve seu uniforme rasgado por um passageiro desordeiro. Durante um vôo entre Londres e Málaga, Espanha, um passageiro bêbado quebrou uma garrafa de vodca na cabeça de uma comissária e cortou seu corpo com cacos de vidro.

Estes e muitos outros casos de agressões verbais e físicas estão sendo cuidadosamente investigados, mas a Federação Internacional de Trabalhadores no Transporte, com sede no Reino Unido e 5 milhões de membros (dos quais meio milhão de comissários e comissárias de vôo) de 136 países, iniciou um movimento mundial para que as infrações a bordo possam ser enquadradas por uma única jurisdição mundial, possibilitando a detenção imediata de um passageiro "furioso", independentemente de sua nacionalidade e da bandeira da respectiva companhia aérea. Afinal não existe justiiicativa para tolerar nenhum tipo de comportamento anti-social quando se está a 10 mil metros de altitude dentro de uma cabine que, conforme o número de passageiros e a duração do vôo, já é por si só uma incubadora natural de tensões - normalmente mantidas sob controle.

Diversas situações podem, mesmo isoladas, conduzir a um comportamento agressivo. No entanto é mais comum ocorrerem acessos de "fúria aérea" deflagrados por diversos fatores perversamente combinados. A grande preocupação das companhias aéreas, dos órgãos que regem o tráfego aéreo, das forças policiais, dos especialistas em segurança e em fatores humanos, de psicólogos, médicos e outros é a troca de informações que levem a um quadro mais definido sobre as causas da crescente epidemia de "fúria aérea" que se verifica nos últimos anos. Uma legislação supranacional rígida só serve para remediar uma eventual infração depois que esta foi cometida - e cujas conseqüências não podem ser estimadas antecipadamente.

Estudos feitos isoladamente ou por grupos de trabalho como o constituído recentemente pela companhia belga Sabena já apontam para uma possível lista de "espoletas" para detonar a "fúria de bordo". O álcool encabeça a lista, embora nem de longe possa ser considerado o único vilão da nova e desagradável doença. O consumo excessivo de álcool como calmante para substituir o proscrito cigarro pode desestabilizar um fumante "pesado" que normalmente voa ansioso ou tenso. Em muitos casos, fobias e comportamentos anti-sociais são trazidos para bordo após sua geração nas derradeiras horas de trabalho em terra antes do embarque.

É fato conhecido que todas as espécies de fobias que contribuem para provocar o medo de voar nascem e crescem ern terra. Detalhes que parecem um preciosismo acadêmico também foram apontados como fatores de irntação: a troca do lugar marcado, a limitação da bagagem de mão, a preocupação com a bagagem "checada", a proibição do uso de celulares e, no topo da lista, a proibição do fumo em vôos de qualquer duração.

A Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes culpa ainda "as crescentes contradições do transporte aéreo" pelo que vem acontecendo a bordo. Entre estas, a de maior interesse se refere ao fator "frustração": o abismo entre as expectativas do passageiro e a realidade que experimenta tão logo toma seu assento (principalmente na classe econômica) pode provocar um sentimento de revolta no decorrer do vôo. Segundo as pesquisas, o passageiro sente-se enganado, pois acreditou nas sedutoras imagens de bordo criadas e veiculadas pelos mais talentosos profissionais da persuasão, incumbidos de atrair passageiros para as duas classes que realmente interessam às companhias aéreas. Existe um pouco de ingenuidade, claro. Quem não conhece as condições de uma classe econômica, mesmo que não totalmente lotada? Anunciar o que para atrair quem? Não existém ainda registros completos sobre as classes ocupadas pelos passageiros desordeiros, mas é provável que a maioria viajasse na classe econômica. O que já é meio caminho andado para engrossar üm novo grupo de "hooligans", que viaja pelo ar.

ERNESTO KLOTZEL é engenheiro de vôo e jornalista de aviação.

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