Xô, urubu
Ninguém contesta o direito milenar que as aves têm sobre os céus - isso contudo inclui regiões próximas a grandes e movimentados aeroportos, onde os vôos desses animais podem interferir com as operações de jatos. Na grande maioria dos casos, uma eventual quebra da convivência harmônica entre as aves de penas e as de metal em áreas congestionadas do céu não tem maiores conseqüências para a normalidade de um vôo. As turbinas modernas são construídas para resistir perfeitamente a uma momentânea distração das aves. Os recursos - na maioria pouco eficazes - utilizados para afugentar os bípedes emplumados têm incluídos até falcões treinados e, mais recentemente, ondas eletromagnéticas e efeitos ópticos a laser de fazer inveja a muitas danceterias. O esforço, contudo, parece desnecessário: ao que tudo indica, as aves não confundem um grande jato comercial com um predador gigante e simplesmente saem do caminho quando uma dessas máquinas se aproxima a grande velocidade.
Resta então a desatenção para explicar a ingestão de aves por uma turbina. A solução encontrada pela ANA - All Nippon Airlines há mais de 20 anos, e depois adotada pelas demais companhias aéreas, foi pintar um "caracol" branco sobre o fundo negro do nariz do fan de cada turbina. Os leigos podem pensar que se trata de uma marca ou logotipo do fabricante de motores ou uma indicação de que o fan está girando com o vento. Contudo, a verdade é que, a cerca de quatro mil rotações por minuto, o caracol oferece às aves um efeito visual mais alarmante do que um aparelho de 350 toneladas aproximando-se a quase mil quilômetros por hora.
ERNESTO KLOTZEL é engenheiro de vôo e jornalista de aviação.
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