Um dia de céu claro nem sempre é o prenúncio de uma viagem aérea tranqüila. Quando viajamos nos meses da primavera e do verão, as formações de nuvens dão a resposta aos feixes de ondas emitidos pelos radares de bordo e “avisam” o seu estado de ânimo. Um radar de bordo e um “storm scope” permitem à tripulação evitar regiões de turbulência.
Esse avanço ainda não está disponível para que turbulências invisíveis sejam evitadas. Como não há, ainda, uma tecnologia disponível, o conhecimento da existência de turbulência de céu claro (CAT), normalmente, é obtido por reportes dos pilotos sobre o tempo (PIREPS). Ou seja, alguém tem que experimentar um vôo em condições de turbulência para que outros usuários do espaço aéreo possam voar conhecendo as condições de tempo de sua rota.
A turbulência de céu claro pode se manifestar em diferentes condições. Acima de 30.000 pés (cerca de 10.000 metros) de altitude elas se manifestam às margens de massas de ar que se deslocam a velocidades bastante elevadas em relação a outra massa de direção e velocidade diferentes. Pode-se dizer que uma CAT é uma perturbação que uma corrente de jato provoca numa certa área. Essa perturbação se manifesta em forma de redemoinhos, que podem fazer as aeronaves perderem grandes altitudes em poucos segundos. Há casos de falecimentos de passageiros, que viajavam com o cinto de segurança não afivelado e foram arremessados para fora de suas poltronas.
Uma CAT também pode ocorrer quando uma corrente de jato entra em contato com a tropopausa e, nesse caso, ela é mais perceptível pela navegação aérea nas rotas polares, pois naquela região ela se manifesta próximo dos 8.000 metros de altitude.
Nas áreas mais afastadas dos pólos e abaixo de 30.000 pés, as CAT são freqüentes quando está ocorrendo a entrada de uma frente, ou quando o vôo ocorre próximo de montanhas. Ao avistarmos no céu um tipo de nuvem muito leve, que parece uma pequena camada de algodão bem esgarçada, provavelmente naquela área uma CAT esteja se manifestando. A nuvem cirrus, também chamada de rabo de galo, se constitui numa forma empírica de detectar uma CAT.
Se a indústria aeronáutica já utiliza a tecnologia do radar para evitar turbulências de estações quentes há muito tempo, por que ela ainda não se preocupou em desenvolver um equipamento de detecção de turbulência invisível? Parece que o desinteresse está associado ao fato da baixa mortalidade provocada pelos incidentes provocados pelas CAT. Isso não quer dizer que nada está sendo realizado para oferecer mais esse conforto à navegação aérea. O desenvolvimento da tecnologia que utiliza raios laser para avaliarem as partículas existentes no ar está embutido no programa Aclaim (Airborn Coherent Lidar for Advanced Inflight Measurements), coordenado pela Nasa.
Como um radar, raios laser são emitidos e refletidos pelas partículas de ar de volta à origem. Devidamente decodificados, o eco de retorno permite avaliar a variação da velocidade do vento ao longo da trajetória do laser. Uma variação muito grande prenuncia a existência de uma turbulência de céu claro.
Como limitação, o Aclaim apresenta um pequeno alcance. Ele permite analisar as partículas de ar que se encontram a uma distância pequena da aeronave e isso não é desejável para uma aeronave que voa a cerca de 900 km/h. O ideal é o desenvolvimento de uma tecnologia que permita conhecer toda a massa de ar que envolve a aeronave em vôo.
Ainda que estejam em desenvolvimento novas tecnologias, que venham a atender em especial as empresas aéreas, é bom colocarmos as barbas de molho e sempre voarmos com o cinto de segurança afivelado para não sermos mais uma vítima de uma CAT. |