Quando a comissária de bordo pede aos passageiros de um avião que desliguem os dispositivos eletrônicos (DEPs), ela não está sendo chata. Precavida é a palavra. Segundo estudos realizados pela ONG americana Radio Technical Commission for Aeronautics (RTCA), equipamentos como laptops, celulares e CD players podem, sim, pôr a segurança dos vôos em perigo.
A lista dos equipamentos permitidos ou proibidos ainda é desconhecida de muitos. Por isso, alguns insistem em fazer a barba ou se distraem com joguinhos que usam pilha, mesmo estando o avião em movimento. Em janeiro, a companhia européia Lufthansa iniciou os testes do sistema Flynet, que permite a passageiros da primeira classe e da executiva uma conexão de alta velocidade à internet por satélite, que já funciona na linha Frankfurt-Washington (com Boeing 747-400). Mas sem mouse wireless...
Instrumentos na cabine notam chegada de "estranho"
Quando algum aparelho proibido está sendo usado no avião, o comandante pode sentir oscilações estranhas nos instrumentos da cabine de comando — como demora no tempo de resposta do altímetro, por exemplo. A atitude mais comum é a comunicação do fato às comissárias de bordo, que buscam entre os passageiros aquele que está usando o aparelho, pedindo o desligamento do equipamento:
— No passado, chegamos a ter casos reportados por comandantes de interferência ou até o apagamento de algum de seus instrumentos — diz Luiz Maurício Maranhão Pinto, gerente de investigação e prevenção de acidentes da Varig.
A Nasa tem um banco de dados com todo tipo de incidente envolvendo segurança em aviação: de janeiro de 1986 a junho de 1996 foram registrados mais de 60 mil incidentes envolvendo aparelhos usados a bordo de aeronaves. A culpa mais freqüente é da emissão eletromagnética dos equipamentos portáteis, que chega aos instrumentos da cabine através de antenas, fiação ou pelo receptor de sinais. A interferência pode ocorrer se houver coincidências como distância entre o equipamento transmissor de ondas eletromagnéticas e os equipamentos das aeronaves. Mas outros fatores podem influir: blindagem inadequada dos equipamentos, posição de antena e freqüências dos DEPs.
Luiz Maurício Maranhão diz que os passageiros estão mais conscientes e, por isso, diminuiu o uso dos equipamentos que oferecem riscos ao bom vôo. O resultado foi a escassez dos casos de pane. Mas a consciência ainda não é generalizada. É inegável que uma viagem longa é cansativa e enfadonha. Para passar o tempo, muitos passageiros recorrem a estratagemas como escrever no laptop, jogar Paciência no PDA ou fazer fotos usando câmera digital. Até aí, tudo bem: muitos aparelhos são permitidos depois que o avião decolou e mesmo depois de atingir altitude de cruzeiro.
O abuso chega na forma do uso indiscriminado de barbeadores (!), gameboys e computadores equipados com impressoras portáteis e mouses sem fio, proibidos em qualquer fase da viagem. (Confira no box a lista dos aparelhos permitidos e proibidos).
Celular só com porta do avião aberta e motor desligado
Praticamente indispensável hoje, o celular ainda é um grande tabu na aviação civil. Como nada foi provado — nem que ele ofereça riscos nem que seja inofensivo —, o Departamento de Aviação Civil (DAC) preferiu estipular regras para o seu uso. Através da portaria DAC 02/DGAC, de 4 de janeiro de 2002, o DAC proibiu o uso dos aparelhos depois que os aviões fecham as portas e ligam os motores. Até esse momento, é permitido o uso.
A recomendação de não usar o celular em vôo é da Federal Aviation Administration (FAA), entidade americana de segurança aeronáutica. Ela faz pesquisas e libera os resultados para o resto do mundo: o que decide acaba virando regra internacional.
De acordo com o mestre e doutor em Física Luiz A. M. Scaff, professor do Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas da PUC de São Paulo, a radiofreqüência pode, sim, provocar respostas erradas nos equipamentos de aviação, mas a possibilidade de um dano irreparável é remota:
— O celular pode causar uma pane não-perceptível nos instrumentos, atrasar a resposta de alguma informação importante e prejudicar o vôo. Nada foi provado ainda, mas, por medida de segurança, é melhor acreditar nas comissárias e não usar — diz.
Para quem tem dúvidas sobre o que pode ou não usar, uma leitura no cartão de segurança das aeronaves pode ajudar. Quem não entender as recomendações pode recorrer ao auxílio das comissárias, treinadas para dar informações. O que (não) é permitido
A emissão eletromagnética proveniente dos dispositivos eletrônicos portáteis (DEPs) pode interferir nos sistemas de comunicação presentes nas cabines dos aviões e causar problemas aos comandantes, que podem perceber, no momento em que um aparelho é ligado, oscilações suspeitas em seus instrumentos de trabalho.
Para evitar incidentes, o Departamento de Aviação Civil (DAC) recomenda às companhias aéreas a proibição ou liberação de determinados aparelhos no embarque/desembarque de passageiros e durante o vôo. Abaixo, os aparelhos que são liberados e os que são proibidos e em quais momentos os passageiros podem usá-los.
APARELHOS PERMITIDOS EM TODAS AS FASES DO VÔO: Mesmo quando o avião atinge altitude de cruzeiro: máquinas fotográficas (com flash embutido), marcapasso, relógios eletrônicos, aparelhos auditivos e equipamentos médico-eletrônicos imprescindíveis.
APARELHOS PROIBIDOS NAS FASES DE POUSO E DECOLAGEM DAS AERONAVES: Câmeras filmadoras e de vídeo; gravadores de fita cassete; calculadoras; agendas eletrônicas; barbeadores elétricos, computadores pessoais (PCs) e laptops. Quando o avião se estabiliza, eles são liberados.
EM TODAS AS FASES DO VÔO: Telefones celulares — aqui entra um porém: os celulares podem ser usados quando a aeronave estiver estacionada na rampa, no local designado para embarque e desembarque de passageiros, com os motores do avião desligados e com as portas abertas. Quando a tripulação fecha as portas da aeronave e os motores são ligados os celulares devem ser desligados. Aparelhos que não podem ser usados nos vôos: pagers (Teletrim, Motorola, etc); toca-discos; CDs e D.A.T. (digital audio tape, fita cassete digital usada em demos de bandas); jogos eletrônicos — tais como gameboys ou quaisquer outros que usem pilha; computadores e laptops equipados com impressoras, mouses sem fio, modem ou CD-ROM; rádios transmissores e receptores de FM e GPS; controles remotos; microfones sem fio e TV's portáteis.
Fonte SNEA |